Archive for 2007

Comer o ovo da galinha feliz

Terça-feira, Dezembro 18th, 2007

Prezados leitores, esse é o último texto desse ano. Voltaremos com textos inéditos no dia 7 de janeiro. Gostaria, em nome da equipe que colabora com o Bloganda, agradecer a todos que, desde setembro, participaram desse projeto com idéias e sugestões.

Em 2008, Bloganda continuará com o objetivo de formar, qualificar e valorizar o profissional de propaganda.

Um bom ano para todos.

Você já pensou nisso?

Ao saborear um ovo, em suas diferentes formas culinárias, passou por sua cabeça, se a galinha, responsável pelo ovo, é uma galinha feliz? Sim, porque galinhas podem ser felizes. E você, mesmo que nunca antes tenha perdido seu precioso tempo para pensar no caso, irá concordar comigo que é muito melhor comer o ovo da galinha feliz.

Nos últimos anos, houve uma supervalorização das marcas que identificam produtos e seus diferenciais de qualidade, preço ou propostas subjetivas. O que parece ser igual é, na realidade, diferente aos olhos dos atentos consumidores. Por isso, há um esforço de informação sobre as condições do processo de produção.

O cuidado com a matéria-prima, sua origem, as condições humanas daqueles que produzem os insumos. A localização das fábricas, as práticas de produção, o destino dos resíduos, a forma de transporte. O relacionamento comercial com fornecedores e clientes. O pós-venda, as centrais de atendimento. Enfim, tudo é importante. Além do produto, existe um universo de aspectos que, hoje, são levados em conta na hora de sua aquisição.

A propaganda torna-se facilmente mentirosa caso enalteça produtos que, sabidamente, em seu processo de produção ou distribuição, desrespeitem o que é aceitável como correto e responsável.

Algumas marcas pagam, ou pagaram, caro pelo descuidado em seus processos produtivos. Até hoje, a Nike se recente do fato de utilizar trabalho infantil em sua linha de produção em paises subdesenvolvidos da Ásia. Conheço muita gente que se nega a ter um produto da marca, por esse deslize de comportamento. Eu mesmo deixei de comer determinadas balas de café importadas, depois que soube da denúncia de que eram produzidas por trabalhadores escravizados da África.

Considero esse um fenômeno do nosso tempo e com o qual os publicitários devem se preocupar. As contas publicitárias e os clientes, disputados com afinco e conquistados como troféus de competência, podem e devem ser olhados pelas agências como empresas capazes de cometer deslizes.

Há algum tempo, esses deslizes eram considerados eventos esporádicos que nada tinham de relação com a comunicação, com o belo filme publicitário produzido com esmero ou com o anúncio de revista e sua modelo majestosa. Nada, ou aparentemente nada, contaminava a criatividade da propaganda na apresentação dos argumentos necessários para seduzir o consumidor.

NOVO CONSUMIDOR

Os tempos são outros. O produto e as marcas estão inseridos em contextos onde a postura da empresa em relação a determinados temas é relevante para o consumidor. Aprendemos a observar as causas e os efeitos das nossas atitudes. Aprendemos a nos perceber como parte integrante de uma engrenagem onde as nossas decisões podem influir nos destinos da humanidade. Isso faz toda a diferença.

Os futuros profissionais de propaganda irão fazer propaganda para um outro tipo de consumidor. E, como corremos o risco desse consumidor mudar antes que as escolas de propaganda percebam o fato, cabe um alerta sobre as campanhas publicitárias que vamos conceber e produzir. Não tenho dúvidas de que serão melhores do que as que fizemos tempos atrás.
Nesse processo, aconselho um cuidado especial para não confundirmos responsabilidade com conservadorismo de pensamentos. O fato de sermos responsáveis não cerceia a criatividade ou a imaginação; muito menos o humor com que podemos tratar as coisas. Esse tom terá de ser encontrado e entendido.

MODAS FÁCEIS

Outro cuidado é com o que é realmente importante. Hoje vemos uma série de anunciantes que fazem campanhas sobre neutralizar carbono. Há bandeiras distribuidoras de gasolina que afirmam que, a cada tanque enchido, uma árvore será plantada, há bancos que garantem a plantação de árvores para as contas abertas e assim por diante. Um disparate apoiado pelo mercado publicitário que não tem como explicar ou verificar a real seriedade ou comprometimento dessas ações.

Nós somos provedores de soluções de comunicação e, como tais, cabe uma interferência mais contundente frente a algumas idéias fáceis que alguns anunciantes têm. Não dá mais para fazer anúncio sobre tudo sem ter uma postura crítica frente a posições de gosto e resultado duvidosos.

Da próxima vez que você comer um ovo, entenda esse singelo ato, com um alerta de muito significado e tente, sempre que possível, se assegurar que esse é um ovo de uma galinha feliz.

Medalha, medalha, medalha

Terça-feira, Dezembro 11th, 2007

No último sábado, dia 8 de dezembro a APP Associação dos Profissionais de Propaganda, realizou a final da 28ª edição do Concurso Universitário de Trabalhos de Conclusão de Curso (fotos na Agenda Bloganda). Os 4 trabalhos finalistas, PUC São Paulo (vice-campeã), Anhembi Morumbi, Unicsul e UNIP Bauru (campeã), se apresentaram para uma banca julgadora composta por profissionais de propaganda das áreas de planejamento, mídia e criação. O Concurso é, para muitos alunos, a primeira experiência profissional com as disputas freqüentes no mercado publicitário, tema do artigo dessa semana. Parabéns aos alunos vencedores e boa leitura.

Muitas vezes ouvi criticas sobre o número de premiações do mercado publicitário. Para ser sincero não entendo essa postura. Não vejo mal nos prêmios, pelo contrário. Os prêmios representam uma constante autocrítica que não percebo em outras profissões.

Somos avaliados quando submetemos nossos trabalhos ao julgamento de colegas, que classificam nossos anúncios em melhores ou piores. Mas não é a primeira vez nesse blog que farei a crítica ao pensamento fácil, desprovido de lógica. Em primeiro lugar, não é verdade que criamos anúncios para ganharmos prêmios. Criamos anúncios porque somos remunerados para isso e se eles ganham prêmios isso é conseqüência, não causa do nosso trabalho.

“Anúncio bom é o que vende”, dizem. Nem sempre. Anúncio bom é o que vende, informa, é bonito, correto, ético e ganha prêmios. Anúncio é o trunfo de nossa profissão, a razão do nosso trabalho e é muito simples reduzi-lo a um único aspecto. A venda é importante também. O prêmio é importante também. E mais, o prêmio é um momento mágico para quem o recebe, para o anunciante que pagou pelo trabalho, para o mercado de uma maneira geral, que agrega mais um trabalho como referência. Um trabalho premiado é uma referência.

FANTASMAS

Em segundo lugar, cabe aqui contar sobre os tão falados anúncios fantasmas. Essa é uma denominação curiosa. Anúncios não são fantasmas. Existem, foram pensados, estudados, produzidos (mesmo que em layout). Houve pesquisa.
Quero me aprofundar nesse ponto da pesquisa, mas antes preciso informar ao leitor que denominamos de anúncios fantasmas aqueles que foram criados (por isso existem), mas não foram veiculados (e mesmo assim continuam existindo).

Quando criamos anúncios estamos fazendo pesquisa. Estamos pesquisando linguagem, formatos, direção de arte, elaboração de um texto. Mesmo que o anúncio não seja veiculado todo esse trabalho não foi em vão, será usado em momento oportuno. Como no mercado da moda, os anúncios que não foram veiculados são as roupas usadas em desfile. Não vemos esses modelos nas ruas, mas sabemos que eles são resultados de pesquisa. Cor, corte, texturas etc… Não há problemas éticos em inscrever uma peça que não foi veiculada em um festival de propaganda. Desde que isso seja permitido e não seja omitido da organização do evento.

O problema está em uma exigência da grande maioria dos festivais que aceitam na disputa pelos prêmios somente anúncio comprovadamente veiculado. Um erro dos festivais. E é por isso que existem os anúncios fantasmas. Eles foram efetivamente criados, mas para participarem de competições seus responsáveis procuram a todo custo um meio para veicular.

Sem mídia específica e muitas vezes sem o conhecimento do anunciante, as agências programam os anúncios só para conquistarem o direito à disputa dos prêmios. Aí está o motivo do pensamento que muitos de nós gostamos muito mais do prêmio do que dos resultados dos seus anúncios.

Gostaria muito de liderar um movimento para a aceitação de anúncios não veiculados nas competições oficiais do mercado publicitário, no Brasil e no mundo. Isso representa valorização do trabalho de pesquisa tão importante para a evolução da nossa profissão.

LISTA DE FESTIVAIS

Principais Festivais no mundo:

Festival Internacional de Publicidade de Cannes
Cidade: Cannes
Período: junho
Representante brasileiro: jornal O Estado de S. Paulo
www.canneslions.com

Clio Awards
Cidade: Miami
Período: maio
Representante brasileiro: jornal Folha de S. Paulo
www.clioawards.com

The One Show
Cidade: Miami
Período: maio
Representante brasileiro: jornal Folha de S. Paulo

The New York Art Directors
Cidade: Nova York
Período: maio
Representante brasileiro: jornal Folha de S. Paulo
www.newyorkfestivals.com

London International Awards
Cidade: Londres
Período: novembro
Representante brasileiro: jornal Gazeta Mercantil
www.liaawards.com

Design & Art Direction (D&AD)
Cidade: Londres
Período: maio
Representante brasileiro: não tem
www.dandad.org


Principais Festivais Ibero-Americano

FIAP
Cidade: Buenos Aires
Período: abril
Representante brasileiro: jornal Folha de S. Paulo
www.fiap.com.ar

El Ojo
Cidade: Buenos Aires
Período: novembro
Representante brasileiro: rádio Band News FM
www.latinspots.com

Festival Internacional de Publicidade em Língua Portuguesa*
Cidade: Cascais (Portugal)
Período: novembro
Representante brasileiro: não tem
www.sinospt.com
* Esse prêmio possui uma categoria para alunos inscreverem anúncios “fantasmas”, ou melhor, que não foram veiculados.

Principais Festivais Brasileiros

Profissionais do Ano
Cidade: São Paulo (final)
Período: outubro
Organização: TV Globo

Prêmio Abril
Cidade: São Paulo (final)
Período: maio
Organização: Editora Abril
www.premioabrildepublicidade.com.br

CCSP
Cidade: São Paulo
Período: maio
Organização: Clube de Criação de São Paulo
www.ccsp.com.br

Melhor do Rio
Cidade: Búzios
Período: outubro
Organização: Clube de Criação do Rio de Janeiro

Prêmio ANJ
Cidade: São Paulo
Período: abril
Organização: Associação Nacional de Jornais
www.anj.org.br

Grupo de Profissionais de Rádio
Cidade: São Paulo
Período: novembro
Organização: GPR – Grupo de Profissionais de Rádio

Central de Outdoor
Cidade: a confirmar*
Período: novembro
Organização: Central de Outdoor
www.outdoor.com.br
* tradicionalmente acontecia em São Paulo, mas com o Projeto Cidade Limpa da Prefeitura do Município de São Paulo haverá transferência de local.

Prêmio Folha/Meio & Mensagem
Cidade: São Paulo
Período: abril
Organização: jornal Folha de São Paulo e revista Meio & Mensagem

Festival Mundial de Publicidade de Gramado
Cidade: Gramado
Período: junho
Organização: Associação Latino-Americana de Agências de Publicidade
www.festivalgramado.com.br

Festival Internacional de Publicidade do Rio de Janeiro
Cidade: Rio de Janeiro
Período: a confirmar
Organização: Associação Brasileira de Propaganda
www.abp.com.br
Essa relação é dos festivais destinados à avaliação dos trabalhos criativos. Existem festivais e prêmios para outros segmentos como mídia on line e marketing.

Sopa de letrinhas

Terça-feira, Dezembro 4th, 2007

As diversas denominações das ferramentas que complementam a atividade publicitária.

Full service, beyond advertising, brand experience, total branding, bellow the line, disruption e outras expressões para dizer a mesma coisa: fazemos qualquer negócio. E não nos envergonhamos disso, pelo contrário, as grandes agências e anunciantes incentivam a utilização de ferramentas complementares à atividade publicitária e apreciam dar nomes que expressem o conjunto dessas ferramentas.

O fenômeno teve início no final dos anos 1970 e foi liderado pelas agências multinacionais. Aconteceu no mundo todo e agitou o mercado brasileiro. As agências de propaganda consolidadas foram estimuladas por seus clientes a agregar aos serviços convencionais, os serviços de promoção, marketing direto, marketing de relacionamento, treinamento, incentivo, design etc.

Muitas montaram departamentos internos, outras decidiram criar agências especialistas e várias foram às compras, adquirindo empresas existentes. De todo esse processo, restou o saldo positivo de qualificação e valorização dos profissionais especialistas em outras áreas de competência.

DISPUTA DE ESPAÇO

Alguns grupos reúnem sob seu guarda-chuva um número expressivo de empresas para atender seus clientes e disputar espaço com os clientes alheios e, muitas vezes, conflitantes.

Chamamos de clientes ou contas conflitantes aquelas que pertencem a um segmento já atendido pela agência. Por exemplo, uma agência de propaganda não pode atender dois bancos ou dois supermercados ou ainda duas operadoras de telefonia móvel. Mas suas “irmãs”, de outros segmentos da comunicação, podem.

A administração das empresas (e dos conflitos) nem sempre é uma tarefa fácil. Os grandes grupos internacionais de agências de propaganda não só reúnem uma série de agências, como também reúnem uma série de empresas especializadas. No final das contas, tudo se transforma em um grande emaranhado de agências que atendem publicitariamente um cliente e, por exemplo, no marketing direto, seu principal concorrente.

Como podemos perceber, a tolerância é uma característica do sistema capitalista, pelo menos na propaganda e suas atividades congêneres. Todos conspiram pela manutenção do sistema e dos empregos. Somos uma verdadeira corporação.

NOVOS NOMES

Mas voltemos às denominações. Conferir nomes ao que fazemos, de preferência em inglês, é quase um vício. Algo irresistível que cultivamos com afinco. Vira e mexe surge um nome novo para o que já fazíamos. São as nossas embalagens. Renovamos o discurso através de uma nova denominação e conquistamos clientes com isso. Atuamos em uma dinâmica própria do mercado e o conhecimento dessa dinâmica nos transforma em profissionais competitivos.

Muitas vezes fui crítico da forma com que as agências onde trabalhei montavam departamentos, contratavam profissionais ou, até mesmo, compravam empresas e embalavam tudo isso com um nome. Com o passar do tempo, entendi a dinâmica, o funcionamento, o negócio. Gostaria que os futuros profissionais de propaganda entendessem, desde o início de suas carreiras, esse sistema e dedicassem energia ao seu aprimoramento e não à crítica.

Nosso negócio, nossa profissão, valoriza a convivência pacífica entre as diferentes ferramentas da comunicação. Sabemos que um anunciante precisa ter ao seu dispor diversas ferramentas para alcançar seus objetivos comerciais e de comunicação. Não há instrumento único e não há salvadores da pátria ou campanhas exclusivamente publicitárias que sintetizem o conjunto de benefícios e características de uma marca ou serviço. As empresas de comunicação descobriram isso há 30 anos e não perderam tempo em apresentar para o mercado e principalmente para os anunciantes – donos do dinheiro – um cardápio de agências especialistas em diferentes ferramentas. Esse processo fez com que o mercado publicitário brasileiro crescesse e se profissionalizasse.

Já me posicionei sobre a estrutura curricular dos cursos de propaganda no Brasil. Defendo a formação básica como fundamental para os pretendentes à carreira de publicitários. Mas isso não dispensa a importância das escolas em oferecer, aos futuros profissionais, uma ampla visão das múltiplas possibilidades profissionais que encontramos nos serviços especializados de comunicação.

Minha convivência com estudantes de propaganda do Brasil inteiro sugere que esses aspectos estão em grande parte sendo esquecidos pelas escolas. Mais do que aptidões ou competências, é importante que as faculdades informem seus clientes, os alunos, sobre as oportunidades da indústria da comunicação. Caso as escolas tenham dificuldades naturais diante da rapidez das transformações e da lerdeza da informação, cabe aos estudantes um esforço extra para adquirir conhecimento e informação sobre a sopa de letrinhas em que se transformou nos últimos tempos a propaganda.