Sobre os contadores de histórias

18 de Setembro de 2007 · 623 Views

Nós somos contadores de histórias. Fazemos isso por vocação. Nossas histórias são preparadas cuidadosamente por diversas pessoas. É como se fosse uma linha de montagem de histórias. São histórias encomendadas, eu sei. Mas que mal há nisso.

Estudamos, e não é pouco, para, cada vez mais, contarmos melhores histórias. Mais verdadeiras, mais éticas, mais bonitas. Não temos preconceito quanto à forma. Fazemos isso, contamos histórias na TV, no cinema, no rádio, nas revistas, nos jornais, nos outdoors, na internet e hoje, cada vez mais, inventamos novos locais, milhares deles, para contarmos nossas histórias. Esse é um propósito. Onde houver alguém, descobriremos uma forma de contar nossas histórias.

Somos remunerados por isso. Sim, essa é uma profissão. Contar histórias é uma atividade remunerada no mundo todo onde muitos contam histórias. Até nos reunimos para uns ouvirem as histórias dos outros. Fazemos uma vez por ano em determinados locais. Juntos, contadores de histórias do mundo todo, contando um para o outro as histórias criadas no último período anual. Nesse momento, as melhores histórias - aquelas mais encantadoras, mais convincentes, mais persuasivas, que servirão de referência no mundo todo para outros contadores, para os novos contadores - recebem prêmios. E como gostamos dos prêmios.

Em alguns momentos, brigamos para contar histórias. Brigamos pelo direito de conquistar uma história para contar. É uma briga digna das grandes disputas. Preparamos-nos, criamos estratégias, táticas, desenvolvemos um poderoso material bélico entre roteiros e lay-outs. Ensaiamos à exaustão e apresentamos nossas histórias. Como em todas as disputas, um único contador recebe o direito de contar sua história. Alguns de nós, por contar durante muitos anos histórias parecidas, são reconhecidos por nós e pelos que encomendam nossas histórias como especialistas em um segmento de histórias.

Existem escolas para nos ensinar a contar histórias. Muitas delas espalhadas pelo mundo. Em nosso país, possuímos dezenas, centenas delas. Em todo o canto desse país cheio de histórias, temos uma escola para nos ensinar a contá-las. Isso é bom. Porque em cada local há um jeito, uma forma de contar histórias.

Como contamos muitas histórias, de diferentes formas, em diversos locais, nos preocupamos em manter alguns critérios éticos. Por isso temos regras, regras próprias de conduta, e admitimos que, em alguns momentos, nos excedemos em nossas histórias e aceitamos revê-las para que se adequem melhor aos critérios éticos por nós mesmos definidos.

Somos muitos, então foi necessário definir de que forma recebemos por nossas histórias. Isso é uma conquista. Como recebemos, em linhas gerais, da mesma maneira, não somos escolhidos pelo custo ou pelo preço e sim pelo talento em contarmos histórias.

Talento para nós é mais que uma palavra. É um conceito, uma idéia, um valor. Em nossa linha de montagem de contar histórias temos diversos talentos.

Os talentos do planejamento, atentos à encomenda da história e seus objetivos. Em muitas ocasiões, esses talentos traduzem a encomenda difusa. Organizam a confusão de propósitos da encomenda. Quem encomenda quer contar um monte de coisas em uma única história. Os talentos do planejamento não permitem isso, ou melhor, indicam qual é a melhor história dentre as tantas existentes em uma encomenda.

Eles não fazem isso sozinhos, ninguém faz. São auxiliados pelos talentos do atendimento. Profissionais que vivenciam as aspirações, desejos e vontades inseridas na encomenda. Esses ainda são motivados a organizar a linha de montagem. Ávidos no propósito de contar histórias, nos atropelamos, e lá estão os talentos do atendimento zelando pela organização da linha de montagem.

Essa linha de montagem tem outros contadores. Tem aqueles com o poder de indicar qual o melhor local para nossas histórias serem contadas. São os talentos da mídia. Apoiados em uma série de pesquisas eles indicam onde nossa história será mais ouvida e, principalmente, quem quer mais ouvi-la.

Quando sabemos onde vamos contar nossas histórias, nos dedicamos a adequá-las ao meio selecionado e isso cabe ao talento da criação. Esse profissional transforma idéias em histórias persuasivas, capazes de antecipar tendências, modificar conceitos, criar modas, mas na maioria das vezes o principal objetivo é ter uma história bem contada.

Histórias bem contadas povoam os diferentes canais de comunicação. Lugares de consulta permanente, diária. TVs, rádios, revistas e jornais possuem também contadores de histórias. São aqueles de nós responsáveis pela inserção das histórias no contexto dos veículos. Esses apresentam constantemente novas oportunidades para que nossas histórias sejam mais bem contadas, mais admiradas e mais eficientes. E ainda há muitos contadores. Há os que produzem as histórias. Na forma de fotos, vídeos, vozes ou qualquer outra forma, esses profissionais dão cara, cor ou som às histórias.

Em todo esse processo, movimentamos milhões, bilhões de reais e, alguns de nós, além de ricos se tornam celebridades. Tudo fruto de uma história bem contada. Existem as histórias oficiais, aquelas patrocinadas pelos governos. Existem as histórias privadas e as histórias voluntárias, militantes. E é aí, nesse aspecto, que está a origem dos contadores de histórias.
Antes da Revolução Industrial e, conseqüentemente, antes do mundo alicerçado entre produção e consumo, os contadores propagavam idéias. Idéias que eles acreditavam e, literalmente, brigavam por elas. A mais conhecida, longa, organizada e convincente propaganda de idéias que se tem notícia são as Cruzadas na Idade Média. De alguma maneira, continuamos a invadir países para apresentar (alguns falam em impor) padrões de comportamento e consumo. Na liderança desse processo agora, ao invés da Igreja, estão as marcas. Fortes e endinheiradas, as marcas contratam contadores do mundo todo para, em diferentes línguas, contar suas histórias.

O passar do tempo e o andar das coisas fizeram com que estabelecêssemos uma distinção entre propaganda e publicidade. Sem polemizar, o mais simples é pensarmos que o que fazemos é propaganda e o que estudamos é publicidade. A publicidade é o conjunto de técnicas as quais utilizamos para fazermos propaganda, para contarmos histórias.
Então, propagandistas ou publicitários, temos histórias para contar, muitas delas, sobre muitas coisas e essa competência, talento e vocação nos transformam em CONTADORES DE HISTÓRIAS.

2 Respostas para “Sobre os contadores de histórias”

  1. Iuri BRAZIL Disse:

    Um contador de histórias que me conhece muito bem, disse que eu adoraria esse texto. Graças a confiança que deposito nese contador, acreditei e comprovei. Naturalmente não me surpreendi, o texto é fantástico e de longe uma das melhores definições para nossa profissão. Nossa profissão é fazer arte, fazer arte para outros assinarem. Fazemos arte por dinheiro, por um mundo melhor, ou até mesmo por ideologias. Somos éticos sim e usamos nosso talento para o bem. Somos contadores de histórias tão boas, que emocionam e influênciam comportamentos.
    Ainda estudo para contar melhores histórias mas acredito que estou no caminho certo e tenho certeza que o farei com qualiade.

  2. BLOGANDA — Idéias para a formação do profissional de propaganda UNITED STATES Disse:

    [...] melhores, mais eficientes, mais bonitas, éticas e rentáveis. Não há segredo. Se admitimos que somos contadores de histórias, é obrigatório que nossa formação passe pelo pensamento constante nas histórias que vamos [...]

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