Todo mundo tem o mesmo patrão

18 de Fevereiro de 2008 · 529 Views

A concentração de agências sob o mesmo grupo empresarial as torna iguais, porque reproduzem em sua gestão os mesmos modelos.

Há algum tempo, em uma agência de propaganda, ouvi uma brincadeira que me agradou muito, como representação do momento atual do nosso negócio: Um grande empresário, dono de diversas agências de propaganda concorrentes entre si, se tornará o único patrão do mercado. Nesse momento, fadigado pela mesmice do negócio, demitirá todo mundo e, aí, tudo começará novamente.

Outro dito do qual gosto muito é que, se vender fosse bom, norte-americano vendia agências de propaganda e não as comprava.

A concentração de agências sob o mesmo grupo empresarial, bem como a voracidade com que esses grupos compram empresas, em especial as brasileiras, é um fenômeno importante para o entendimento do negócio da propaganda.

Sob o argumento de que diversas agências do mesmo grupo podem atender clientes conflitantes, que elas agem independentes umas das outras a ponto de se tornarem concorrentes, ou ainda, que desenvolvem características de gestão próprias e concentram os melhores profissionais do mercado, em diferentes áreas da publicidade, são argumentos que se perdem na lógica dos fatos.

Os grupos empresariais que concentram diferentes agências de propaganda possuem a mesma diretoria. Ou seja, as mesmas pessoas avaliam o desempenho de cada uma das empresas. Algumas com ótimos resultados e dando lucros para os acionistas, outras com péssimo desempenho, provocando prejuízos para os mesmos acionistas. O que devem fazer? Aplicar as práticas de gestão das empresas com bons resultados nas empresas com maus resultados.

Isso é a comoditização da propaganda. Com o passar do tempo, agências de propaganda que fazem parte do mesmo grupo empresarial se tornam iguais porque reproduzem em sua gestão os mesmos modelos. Estimular a concorrência definitivamente não é isso.

Outro agravante é que nós, profissionais de propaganda, não podemos receber convite de agência concorrente, participante do mesmo grupo empresarial. Transferências pressupõem aumento de salário, mas como explicar para os diretores do grupo que um funcionário, que já trabalhava para o grupo por um salário menor, foi contratado para outra empresa do grupo por um salário maior? Complexo, mas verdadeiro.

Por concentrarem estrondoso poder internacional, os dirigentes dos grupos acertam as transferências de contas entre agências ‘irmãs’ sem considerar uma série de fatores como, por exemplo, a perda do emprego de publicitários. Também é simples entender que, se é para continuar sendo atendido pelo mesmo profissional de propaganda, por que trocar de agência?

ALINHAMENTO

Outra conseqüência da incrível concentração de empresas de propaganda no mundo é o alinhamento internacional de contas. Fenômeno curioso que parte de alguns pressupostos que os jovens publicitários vão escutar muito no início de suas carreiras.

O alinhamento se dá quando um cliente internacional é atendido nos diferentes paises em que atua pela mesma agência ou grupo de agências. Geralmente, a determinação vem da sede do anunciante, que decide qual agência será responsável pela comunicação naquele país. Para tanto, as matrizes (anunciante e agência) acertam uma linha de comunicação que deverá ser seguida no mundo todo, com pequenos ajustes locais, mas sem alterar a essência da comunicação, mesmo que essa seja muito distante das realidades locais. Mais ou menos na linha do ‘o que é bom para nós, é bom para todo o mundo’.

Vivenciei muitas histórias em conseqüência do alinhamento internacional. Há casos de apresentar dezenas de campanhas baseadas no conceito mundial, sem conseguir aprovar nenhuma e alguém sugerir a importação de criativos de outros países. Se a importação de pessoas não funcionar, resta a nacionalização do filme estrangeiro, algo como fazer com que uma feliz família porto-riquenha pareça uma feliz família nordestina. Se isso não é o bastante, que tal traduzir o slogan e ouvir perguntas do tipo ‘O que significa isso mesmo?’ ou ‘Qual era a idéia que queria passar?’. Hoje em dia nem se perde mais tempo com essa história de traduzir, usa-se o original mesmo. E são horas e horas de tele-conferência. Primeiro com nossos irmãos argentinos, chilenos ou mexicanos. Depois com a coordenação para as Américas. Esses ficam de preferência na Flórida. E, por fim, com a coordenação internacional. Esses gostam da Inglaterra.

Estereótipos à parte, os sucessos locais não significam sucessos mundiais. E não há mal nisso. Mas uma energia absurda é consumida por anunciantes e agências no cumprimento de uma pauta internacional que não engrandece em nada a marca e seu desempenho local.

REFERÊNCIAS

As referências internacionais são ótimas, mas só são referências. Não endossam o sucesso ou fracasso de um produto. Nada tenho contra as agências multinacionais, pelo contrário, sempre atuei nessas empresas onde aprendi muito do que sei.

O instrumental dessas empresas é vasto e enriquece o pensamento estratégico. Por isso defendo, com veemência, as atuações regionais, pois com esse ferramental à disposição, a possibilidade do resultado estratégico e criativo ser positivo é muito grande quando alinhado ao pensar do publicitário brasileiro e não a um outro pensar.

Abaixo uma relação dos grupos internacionais com atuação no mercado brasileiro:

OMNICOM GROUP

Sede: Nova York – Estados Unidos
Ano de fundação: 1986
Principais agências que operam no Brasil: AlmapBBDO, DM9DDB, TBWA/Brasil

INTERPUBLIC GROUP

Sede: Nova York – Estados Unidos
Ano de fundação: 1961
Principais agências que operam no Brasil: McCann Erickson, Draft Giovanni, Borghier Lowe

WPP GROUP

Sede: Londres – Inglaterra
Ano de fundação: 1971
Principais agências que operam no Brasil: J W Thompson, Ogilvy, Young & Rubicam, Mattos Grey

PUBLICIS GROUP

Sede: Paris – França
Ano de fundação: 1926
Principais agências que operam no Brasil: Publicis, Leo Burnett, F/Nazca S&S, NeogamaBBH, Fallon

5 Respostas para “Todo mundo tem o mesmo patrão”

  1. Iuri BRAZIL Disse:

    Achei muito interessante esse texto, e já tinha consciência de algum desses fatos, até por ter acompanhado a mudança da TBWA que encerrou a sociedade com o Luiz Grotera e uniu forças a Lew Lara. A Lew Lara é uma grande agência e a TBWA com certeza fez um grande negócio, no entanto é difcil entender depois de tanto sucesso com os trabalhos para a Nissan e para a Pedigree por exemplo que o Luiz Grotera e sua equipe tenham ficado da forma que ficaram.

    No ultimo Fest´up assisti a palestra do Angelo Frazão da Mccann Erickson, que falou sobre adequação de comunicação e de como devemos nos comunicar diferente com cada público. Ao final da palestra parei para falar com ele e fazer uma pergunta: “Sabemos que devemos adequar a comunicação a diferentes culturas, regiões e idades, ouvimos isso na palestra e lemos a respeito todos os dias, então como justificar o posicionamento da Coca Cola que atualmente faz apenas campanhas globais”. Sua resposta foi simples e ele disse que o público alvo da Coca Cola no Brasil é o mesmo que nos EUA, na China ou no Japão. Depois pensei melhor e conclui também (deduzi) que a Coca Cola atualmente por ter a marca mais valiosa do mundo e por ser tão conhecida faz um trabalho totalmente institucional para manter seu share of mind, e por isso mantém trabalhos globais, o que justifica a resposta do Angelo Frazão. Afinal os trabalhos possuem em sua maioria grande qualidade.

  2. André BRAZIL Disse:

    Iuri, obrigado pela participação. Aproveito o seu comentário para lembrar que a TBWA efetivou o negócio com a Lew,Lara e hoje, atua no Brail, com o nome Lew,Lara TBWA.

  3. Reinaldo Más BRAZIL Disse:

    Mais uma vez eu tiro a conclusão do texto por uma frase escrita lá no início “se vender fosse bom, norte-americano vendia agências de propaganda e não as comprava”. Falou tudo, André!
    Particularmente, como ainda sou estagiário, numa agência looonge das grandes agências, acho essa realidade um pouco distante, mas espero um dia vivenciar de perto essas negociações com empresas internacionais, ver minha agência fundir com outra e sermos ao mesmo tempo concorrentes.. rs que ironia.
    Para finalizar, vou comentar o comentário do Iuri (cá entre nós, o Angelo Franzão mandou bem na palestra né): a Coca-Cola… marca mais valiosa do mundo… nem precisaria fazer propaganda. Hoje até mesmo os recém-nascidos já sabem o que é Coca-Cola, praticamente as mães já colocam refrigerante nas mamadeiras rsrs
    Mas mesmo sendo tudo isso, essa megapotência, senti uma certa falha nas últimas propagandas dela. Conversando com algumas pessoas (leigos em propaganda), percebi que não são todos que entenderam a mensagem dos comerciais - aquele caso da família porto-riquenha parecer uma família nordestina… um comercial pode ter dado certo em outro país, mas pode ser que aqui não funcione (e isso pode acontecer até mesmo com a Coca-Cola).
    Não quero dizer que os trabalhos não tenham qualidade, mas sim que, assim como o Iuri disse, existem variações de culturas, religiões, enfim.. tudo isso existe mesmo dentro do Brasil, quanto mais mundo afora.
    Pois é.. todo mundo erra, até mesmo a Coca-Cola!

  4. Reinaldo Más BRAZIL Disse:

    Amigos Blogandeiros
    hoje acessando o Meio e Mensagem, vi essa noticia que achei curiosa e fui buscar o video no youtube.
    Achei show de bola, vou compartilhar com vocês e aguardo os comentários!
    Meio e mensagem: http://www.meioemensagem.com.br/novomm/br/Conteudo/?Coca_Cola_veicula_filme_de_tres_minutos_e_meio
    You Tube: http://www.youtube.com/watch?v=Kg9Zjzt0weA

  5. Bloganda - Idéias para a formação do profissional de propaganda » Blog Archive » Dois bancos, um presidente e os saltos altos Disse:

    [...] de hoje. Já houve um texto publicado nesse Bloganda em que comentávamos que, a continuar assim, todos teremos o mesmo patrão. A profecia está se [...]

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