Um buuuu para a mu-mu

17 de Março de 2008 · 427 Views

A vaia é para todas as empresas cujos empregados não usam os produtos que fabricam.

As pautas do Bloganda são originadas em experiências pessoais. Nunca escondi esse fato dos leitores.

Estou no avião pensando sobre o próximo artigo. Eis que me oferecem o lanche e eu, como de costume, aceito. Um “café da manhã” é o que os comissários anunciam. Sem dúvida, mais uma licença poética do mundo da aviação.

Lá estão as tradicionais torradas, o polenguinho e a geléia Mu-mu. Não consigo entender porque uma geléia de frutas se chama Mu-mu, algo que, para mim, remete a doces a base de leite, enfim.

Além do nome, o que mais me impressiona na marca é o fato dos responsáveis pela empresa não consumirem o produto que fabricam. Sim, não acredito que algum executivo responsável por qualquer das áreas de competência da empresa, consuma o produto. Caso contrário, já teriam se atentado ao fato de ser impossível abrir a embalagem individual entregue nas viagens de avião.

Outra possibilidade é ninguém, nessa empresa, viajar de avião. Isso é menos provável. Acredito que viajem e que não aceitem o café da manhã oferecido, se privando, dessa forma, do constrangimento dos outros incautos passageiros, na tentativa, invariavelmente infrutífera, de abrir as embalagens.

As geléias oferecidas são ilusões, são idéias de geléias, não estão lá para serem consumidas, estão lá para serem devolvidas não violadas e poderem retornar no próximo vôo com o objetivo de mais uma vez, transmitirem a idéia de que comemos torradas com geléia.

Onde estão os responsáveis pela geléia Mu-mu? O que lhes fizemos de tão ruim para sermos tratados assim? Por que esse descaso? A companhia aérea também é responsável. Cheguei à conclusão que os executivos da empresa aérea não viajam de avião, pelo menos não nos deles.

Certa vez, li em um dos livros do professor Mena Barreto, que um anúncio de uma companhia aérea alemã trazia o seguinte texto “Nosso vôo para Frankfurt atrasou 7 minutos para ajustes na cafeteira. Se cuidamos da cafeteira assim, imagine como cuidamos dos nossos aviões”. Mais uma vez, se a memória não me trai, esse era o texto e, com certeza, essa era a idéia criativa.

A MARCA É CONJUNTO DE FATORES

Ora, se a geléia oferecida no café da manhã é assim, imagine o que pensar das aeronaves. O produto é um todo, um composto de diversos elementos. Uma marca se constrói nos detalhes. O que dizer, então, do fato da dificuldade em abrir uma embalagem de geléia durante um vôo.

Vergonha para o fabricante da geléia, vergonha para a empresa aérea e vergonha para mim, que, depois de alguns preciosos minutos no ar, desisti de comer a geléia.

A Mu-mu merece uma vaia, um buuu para a Mu-mu, bem como todas as empresas cujos empregados não usam os produtos que fabricam. A vaia é aplicável às empresas de leite longa vida e suas caixas impossíveis de serem abertas sem espalhar leite para todos os lados, aos fabricantes de produtos alimentícios em vidro e seus sistemas à vácuo, verdadeiro desrespeito aos usuários, invariavelmente, submetidos ao suplício de abrir o frasco, aos fabricantes de mostarda e ketchup que insistem em submeter o consumidor ao uso de uma faca, a fim de cortar o bico fechado, e mais uma infinidade de empresas que desrespeitam o consumidor no quesito mais básico de qualquer produto, o acesso ao consumo.

Futuros profissionais de propaganda, esse é um desafio permanente, a atenção sobre os aspectos mais singelos da construção de uma marca. Usem os produtos para os quais estão trabalhando, palpitem sobre o aprimoramento de suas embalagens. Façam experiências reais, comprem o produto, reúnam os profissionais da agência ou do marketing na sala de reunião, distribuam o produto e peçam para que ele seja consumido. Esse exercício pode ser muito mais relevante para a empresa do que o MBA em uma instituição de ensino de primeira linha, e poderá evitar as vaias, que começam como barulho e terminam como fracasso.

2 Respostas para “Um buuuu para a mu-mu”

  1. Reinaldo Más BRAZIL Disse:

    Interessante, André, que você teve várias frustrações durante uma única experiência: com a embalagem da geléia, que levou à frustração com a empresa fabricante e depois com a própria companhia aérea.
    Me lembrei de uma experiência minha também, porém positiva: fiz estágio no MKT de um supermercado na minha cidade há algum tempo e achava muito legal o relacionamento entre os funcionários de cada setor. O que mais me deixava feliz era quando o pessoal da padaria ou da rotisseria fazia uma receita nova e levava no refeitório ou mesmo na nossa sala, para os funcionários experimentarem e opinarem.
    Enfim, às vezes falta isso na Mu-mu: uma maior integração entre os funcionários.
    Aproveito para deixar também minha reclamação sobre embalagens difíceis de abrir: meus avós maternos são bem de idade, com a saúde bem debilitada. Quantas vezes minha avó esperou nossa visita para poder abrir um pote ou um leite longa vida porque com as próprias forças não conseguia…
    Talvez as empresas devessem pensar um pouco mais nesse público que mantém fidelidade à algumas marcas.
    Fica aqui meu buu para essas empresas!

  2. André BRAZIL Disse:

    Ótimo comentário. É isso mesmo, integração, essa é a palavra mágica. Essa experiência no supermercado é genial e deve lhe servir de modelo para a vida profissional. Aproveito o espaço para anunciar que o Reinaldo Más, blogandeiro de primeira hora, é o próximo colaborador da sessão De Estudante para Estudante, na segunda-feira que vem, dia 24, com o artigo Convesando sobre Mídia. Confiram.

Leave a Reply