O boca virgem ou BV
Segunda-feira, Março 10th, 2008Na propaganda, o BV é a Bonificação de Volume, um assunto polêmico entre veículos, agências e clientes.
Tenho um filho adolescente que, com seus amigos de escola, chama aqueles ou aquelas que ainda não beijaram na boca de Bocas Virgens.
O mercado publicitário não tem mais muitas coisas virgens. Quem sabe, nada. Mas continua tendo alguma dificuldade em falar de BV. BV, nesse caso, não são as bocas virgens dos meninos da escola e sim uma sigla que significa Bonificação de Volume.
Muitos publicitários terminaram seus cursos de propaganda em renomadas instituições de ensino e nunca ouviram falar em BV. Pois a Bonificação de Volume é um prêmio, um incentivo oferecido pelos veículos de comunicação para aquelas agências que em um período de tempo (geralmente anual) investiram na compra de espaços publicitários.
Uma agência de propaganda atende diversos clientes e desenvolve para cada um deles uma estratégia de atuação. Nessa estratégia, diferentes ferramentas são utilizadas. A mídia convencional, o marketing direto, a promoção de vendas e muitas outras ações que colaboram com os objetivos que foram planejados para as marcas e serviços. Todo esse trabalho tem acompanhamento direto do cliente. Nada é feito sem seu conhecimento e aprovação. O trabalho do publicitário é um trabalho solidário. O cliente participa de tudo. Participa do acerto e do erro. A escolha das ferramentas é feita de maneira acordada.
PRÊMIO PARA O INVESTIMENTO
Pois o BV é um incentivo que os veículos (tvs, rádios, jornais, revistas etc.) oferecem para as agências caso, no conjunto de estratégias de diferentes anunciantes, seus veículos forem contemplados além dos desempenhos históricos. Não vale o incentivo se uma agência em um ano investir menos em uma emissora de TV do que investiu no ano anterior. O incentivo é para o crescimento.
O fato é que o tema bonificação de volume, ou seja, o prêmio pelo volume investido em um veículo, não é assunto do gosto dos anunciantes, que se sentem lesados pela remuneração das agências. Na visão dos anunciantes, as agências já são remuneradas pelo serviço que prestam e consideram que, se os veículos têm margem para premiar as agências, poderia usar essa margem para conceder maiores descontos nas compras dos espaços publicitários.
Os veículos se defendem afirmando que fazem do dinheiro que recebem o que bem entenderem. Se, ao final de um ano, querem premiar seus mais fiéis parceiros comerciais, ou seja, as agências que mais investiram no veículo, podem fazer isso sem dar explicação ou justificativa a ninguém. Em um mercado pautado pela concordância de propósitos e idéias, esse é um dos poucos assuntos que provocam certa polêmica. Por isso considero importante trazê-lo à luz para discussão nas escolas e pelos jovens profissionais de propaganda.
DESCONFORTO
O BV se tornou uma receita importante para algumas agências de propaganda e isso causa desconforto aos anunciantes que, cada vez mais, investem suas verbas na compra de espaços publicitários. Porém, os anunciantes, zelosos de suas verbas, são useiros e vezeiros nos incentivos que distribuem indiscriminadamente para o varejo, por exemplo. Com o objetivo de terem espaços maiores com seus produtos nas prateleiras dos supermercados, distribuem verbas para o ponto de venda e compram espaços nas gôndolas. É claro que esse dinheiro é repassado ao preço do produto e conseqüentemente impacta o consumidor final, que é quem paga, como sempre, a conta.
Ou seja, o resumo da ópera é que é muito difícil imputar juízo de valor para as práticas comerciais do sistema capitalista de organização da sociedade. E a propaganda está inserida nesse contexto.












