IV Congresso Brasileiro da Propaganda, o desafio de democratizar o debate

14 de Abril de 2008 · 587 Views

O Bloganda lança um desafio para a organização de uma rede social formada por estudantes, professores e coordenadores dos cursos de publicidade e propaganda do Brasil, para que formem a maior representação do IV Congresso.

Parece que foi ontem, que nos reunimos pela última vez. Tão animados estávamos com as novas conquistas (o Conselho Nacional de Auto-regulamentação-CONAR, por exemplo) e esperançosos de que nossas vidas seriam boas, que não sentimos necessidade em nos encontramos nos últimos 30 anos.

Fama, dinheiro, alguns leões em Cannes, mais dinheiro, fama, clientes difíceis, campanhas inesquecíveis, recordes de vendas, de novo Cannes, americanos em visita, americanos a vista, bônus no final do ano, festas e festivais, aulas inaugurais, palestras, júris, prêmios… parece que foi ontem.

Já se passaram 30 anos. Por que esperamos tanto para nos encontrarmos novamente? A resposta é um enigma e deveria ser o tema central do IV Congresso Brasileiro de Propaganda que acontecerá em São Paulo, no World Trade Center, dias 14, 15 e 16 de julho próximo. Se conseguirmos responder a essa questão, o objetivo do quarto encontro será alcançado, afinal teremos vencido nossas resistências em admitir os verdadeiros motivos que não permitiram um encontro menos dilatado do que os longos 30 anos que nos separam de 1978.

O modelo de negócio brasileiro, completamente diferente de parte do mundo onde também se faz propaganda. Como explicar, para os patrões americanos, que não concordamos com a atividade da mídia desassociada da estrutura das agências de propaganda? Como negar em público essa prática que, objetivamente, em nada macula nossa atividade, mas é tida como maldita pelas lideranças da publicidade brasileira?

A bonificação de volume, um bônus pela preferência, dado por veículos de comunicação às agências de propagada, a partir do cumprimento de metas de investimento. Como defender essa prática, tipicamente brasileira, que orienta parcela significativa dos investimentos de mídia em detrimento dos aspectos técnicos do investimento publicitário?
A concentração de verbas para a televisão e o projeto hegemônico da emissora líder de audiência, fenômenos de gosto duvidoso que distorcem o aspecto democrático que as mídias têm por princípio. Como afirmar aos quatro ventos que, no mundo todo, as experiências de distribuição das verbas por diferentes mídias é saudável e agrega valor à comunicação do anunciante?

O financiamento público da propaganda e os métodos pouco ortodoxos de escolha das agências, de distribuição de verba e definição dos conteúdos comerciais. Como afrontar o maior anunciante brasileiro, detentor de uma verba bilionária, que se abriga sob o guarda-chuva da comunicação pública?

O desinteresse pela proliferação de escolas de propaganda e pela qualidade do ensino de publicidade por parte das lideranças do setor. Como propagar idéias a favor dos mecanismos de controle da formação do profissional e proteção àqueles que escolhem a propaganda como profissão sem ferir o senso comum, de que a regulamentação do exercício profissional é um prêmio à mediocridade?

O crescente cerco à comunicação comercial nos aspectos de saúde pública (tabagismo e alcoolismo), morais (apelos sexuais e exposição de crianças) e sociais (diferenças econômicas e culturais). Como condenar a propaganda enquanto, o que chamamos de ficção (as novelas), expõe de forma excessiva e abusiva tudo de mais permissivo, com o único objetivo de entreter?

A dúvida sobre o sistema de remuneração das agências de propaganda, diferente de todos os outros fornecedores dos grandes anunciantes. Como defender o trabalho de corretagem de espaço, sem questionar as margens e os investimentos em imobilizado, que transformam agências de propaganda em exemplos da decoração comercial?

Todas essas e muitas outras questões ficaram sem respostas, e pior, sem debates públicos, nos últimos 30 anos, restritas às salas de reunião daqueles que, hoje, promovem o IV Congresso. O evento não é uma conquista, como querem convencer seus organizadores, os lideres da indústria da propaganda brasileira, é uma concessão dos que resistiram por 30 anos ao diálogo com o mercado.

Pressionados por aspectos que não estão na pauta do Congresso, as lideranças foram obrigadas a admitir a discussão. E se ela tem que existir, que seja sob seu controle. O IV Congresso é uma simulação de boa vontade a reboque dos acontecimentos que atingiram o mercado publicitário brasileiro nos últimos três anos.

As matérias sobre o Congresso e suas comissões temáticas, ocupam espaço na mídia especializada, as lideranças falam e apresentam suas idéias como trunfos guardados por trinta anos e um enorme contingente de profissionais de propaganda ou futuros profissionais são alijados do debate por falta de representatividade.

As inúmeras entidades que foram convidadas a participar da organização do Congresso, com raras exceções, representam as grandes empresas e, nem mesmo, os discursos ufanistas conferem credibilidade às intenções daqueles que nos últimos 30 anos foram beneficiados por um sistema que, sistematicamente, se negaram a debater.

O IV Congresso precisa de um caráter mais público e menos oficial, mais atores e menos platéia, mais futuro e menos passado, mais pensamento e menos prática. As escolas de propaganda (466), espalhadas pelo Brasil inteiro, e os seus quase 200 mil alunos matriculados, precisam participar de maneira orgânica (quantidade) e contundente (qualidade).

O Bloganda lança um desafio para a organização de uma rede social formada por estudantes, professores e coordenadores dos cursos de publicidade e propaganda do Brasil para que formem a maior representação do IV Congresso, capaz de se fazer ouvir e de influenciar sobre os temas relevantes à formação, qualificação e valorização do profissional de propaganda.
Essa proposta legitima o IV Congresso como fórum de debates na ótica daqueles que farão propaganda pelos próximos 30 anos e correm o risco de não se encontrarem para conversar durante esse período.

4 Respostas para “IV Congresso Brasileiro da Propaganda, o desafio de democratizar o debate”

  1. Iuri BRAZIL Disse:

    Muito Bom André, concordo plenamente.
    Gostaria de saber sua opinião. E essa história de poluição visual que vem rolando desde a proibição de outdoor em São Paulo que agora além de se estender à outras cidades, agora pode atingir aos aeroportos. Isso será discutido no Congresso? E sua opinião, o que você acha de tudo isso?

  2. andre BRAZIL Disse:

    Iuri, isso será discutido no Congresso, pois está inserido no contexto de liberdade de expressão que é, na realidade, o grande tema do encontro. A questão é: não podemos considerar que a proibição do Zeca Pagodinho de cantar pagodinhos para a Brahma, seja uma agressão à liberdade de expressão; nem que a proibição da colocação de milhares de plasmas, leds, quiosques e outros adereços em nossos aeroportos seja uma afronta às liberdades conquistadas depois de anos de ditadura. Isso é demais. Começo a desconfiar que o mercado publicitário e nossas lideranças, perderam o senso do ridiculo em prol da defesa de um status quo que, lamento informar, tende a acabar.

  3. Iuri BRAZIL Disse:

    Obrigado André, fico contente, e espero que possamos chegar em resultado positivo, afinal é frustrante assistir à esse ataque constante ao nosso meio.

  4. 4º Congresso Brasileiro de Publicidade | Fernando Paes BRAZIL Disse:

    [...] Bloganda [...]

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