Propaganda é coisa séria

5 de Maio de 2008 · 422 Views

Lamentável a forma pela qual a Associação Brasileira de Agências de Publicidade (Abap) trata a eventual proibição da publicidade de cerveja, tema discutido pelo Congresso Nacional.

Em anúncio veiculado nos jornais, no último dia 28 de abril, a Abap afirmou que a eventual proibição da publicidade de cerveja “é o mesmo que proibirem a fabricação de abridores de garrafas no Brasil”.
Pois não é o mesmo.

A discussão da sociedade sobre os limites da comunicação comercial é um direito e um dever e suas implicações com o cerceamento da liberdade de expressão, aludidas pela Abap, é uma forma mesquinha e covarde com vistas a encerrar o debate em torno de um assunto de relevância para os cidadãos brasileiros.

Não é comparando a publicidade de cerveja à proibição da fabricação de abridores de garrafa que a entidade representativa das principais agências de publicidade do Brasil colabora com o debate. Não é com esse tipo de argumentação que nós, publicitários, queremos ser percebidos pela sociedade brasileira.
Não somos um bando de inconseqüentes infantilizados que não conseguimos defender um ponto de vista sem agredir a inteligência do consumidor.

É justo que nós, publicitários, sejamos contrários à proibição. A indústria da cerveja, no mundo todo, é uma fonte generosa de campanhas publicitárias, tanto nos recursos que destina à comunicação, como nas oportunidades criativas típicas do segmento. Os publicitários argumentam que a proibição da publicidade, por si só, não é o suficiente para sanar os danos causados pelo consumo de álcool e que responsabilizar a propaganda, a ponto de proibir a veiculação de anúncios na mídia, é uma medida muito drástica que compromete um setor importante da economia nacional.

É justo que os representantes da sociedade brasileira discutam a influência da presença indiscriminada de marcas de cerveja na mídia como fonte de estímulo ao consumo excessivo, principalmente pelos jovens. Há vínculos entre a bebida e o aumento da criminalidade, dos acidentes de trânsito ou da violência doméstica.

O debate é sério e dele podem surtir bons frutos a favor de uma sociedade mais madura, capaz de aprimorar suas relações. No entanto, ao banalizar o assunto e trata-lo de maneira jocosa, a Abap presta um desserviço à liberdade, que ela tanto evoca, pois ridiculariza as opiniões contrárias com argumentos fúteis, incompatíveis com a seriedade do assunto.

Ao veicular material publicitário a favor de uma posição, a Abap externou sua preocupação com os rumos da discussão e utilizou a propaganda como ferramenta ideal para expor seus argumentos. Pena que, logo a entidade que reúne as agências de propaganda, tenha perdido a oportunidade de mostrar para toda a sociedade brasileira sua capacidade de articulação e seu papel de amplificador das opiniões.

Veja abaixo o anúncio da ABAP:

8 Respostas para “Propaganda é coisa séria”

  1. Pedro Márcio BRAZIL Disse:

    Bom, a meu ver não é a publicidade que faz com que as pessoas bebam. Isso envolve muito mais uma questão cultural e hereditária.
    Tá, eu vejo aquela cervejinha gelada na tevê e penso, “nossa, é mesmo. Uma cerva geladinha cairia bem pra relaxar”. Mas, caso eu não veja, aquele meu amigo vai lembrar disso. Se não for meu amigo, vai ser o bar na esquina da minha casa.
    Com ou sem comerciais de cerveja, as pessoas vão continuar bebendo. Podem até diminuir a quantidade de vendas do produto, mas não será significativo.

    Enfim, essa é minha opinião.

  2. Kadu Lima BRAZIL Disse:

    Essa atitude da Abap realmente é lamentável. Isso me faz questionar, e não é a primeira vez, sobre o real papel das entidades e associação que defendem e regulamentam o mercado publicitário. Será que realmente lutam pelo interesse da classe ou são apenas forma de autopromoção de seus diretores e conselheiros, que estão mais preocupados em aparecer ao mercado e a mídia do que brigar pelo mercado da propaganda?
    É claro que temos exemplos de que meu pensamento pode ser “bobagem”, como o caso da APP, que em seus 70 anos sempre esteve atenta e lutando pelos interesses e benefícios dos profissionais de propaganda. Outro exemplo indiscutível é o Conar.
    Mas que as vezes fico com a pulga atrás do orelha fico. Parece-me que as associações vêem alguns assuntos como fantasmas, que seu debate assusta a todos.

    Parabéns André. Mais uma vez um texto questionativo e inteligente.

  3. Reinaldo Disse:

    Logo que li este artigo, fiquei com muita vontade de fazer meu comentário, mas não encontrava as palavras certas. Hoje fiquei sabendo de algo que me fez questionar bastante sobre o consumo de bebidas alcoolicas, então segue aqui minha opinião:
    a propaganda divulga as bebidas alcoolicas, mas também divulga suas consequencias, ou melhor, as consequencias quando o consumo é abusivo. Ao mesmo tempo que ela diz “COMPRE! BEBA!”, ela também diz “mas não beba em exagero, senão você morre, maluco”.
    Com esse ponto de vista, acho que as propagandas de cerveja não devem ser extintas e devemos lutar por esse direito. Não é vendo um comercial de cerveja que o cidadão vai se inspirar para beber até cair e não levantar mais.
    Acredito que no mercado tem espaço para todos: para aqueles que querem vender cerveja e para aqueles que querem prevenir os acidentes que podem ser causados pelo consumo abusivo das mesmas.
    Esse foi meu desabafo, mas a questão aqui não é essa, e sim o anúncio divulgado pela Abap. Bom, quanto isso, só posso dizer que lamento. E que todos cometemos erros.

  4. Josué Brazil BRAZIL Disse:

    Eu gostaria de colocar um outro questionamento: é lícito proibir a divulgação de um produto que tem sua fabricação, distribuição e consumo permitidos e autorizados por lei? Ou, perguntando de outro modo, como proibir os fabricantes de cerveja de anunciar se o seu produto pode ser comercializado livremente?

  5. Reinaldo Más BRAZIL Disse:

    Josué, é a mesma questão a propaganda de cigarros: foi proibida, mas a venda é livre.
    Particularmente não condeno a venda de cervejas (nem de cigarros), mas sim o modo como são consumidos - vai da consciência de cada um.

  6. andre BRAZIL Disse:

    Sim é licito. As restrições a propaganda dizem respeito a propaganda e não ao produto que está sendo divulgado. O fato das bebidas alcoólicas serem comercializadas com poucas restrições no Brasil, não autoriza seus fabricantes abusarem sobre os limites da comunicação. Não há proíbição aos anúncios de cerveja, diferentemente do que ocorreu com o cigarro, o que há é restrição quanto aos horários de veiculação.

  7. José fabiano Dias da Silva BRAZIL Disse:

    gostaria de participar de um congresso!

  8. andre BRAZIL Disse:

    José Fabiano, acesse o site
    http://www.congressodepublicidade.com.br
    e se informe sobre o IV Congresso Brasileiro de Publicidade.

Leave a Reply