A indústria de cigarros no Brasil é exemplo do falem mal mas falem de mim
23 de Junho de 2008 · 1,993 Views
O Ministério da Saúde apresentou as novas fotos e mensagens obrigatórias no verso dos maços de cigarros e elas estão cada vez mais violentas.
Desde o ano 2000, a propaganda de cigarros, em qualquer espécie de mídia, está proibida no Brasil. Formamos até hoje, portanto, duas gerações de publicitários alijadas da propaganda tabagista.








Admito que o termo alijado soe forte para uma medida de apelo popular e que, na prática, diminuiu o consumo de cigarro entre os jovens brasileiros. Mas usei a expressão propositalmente, pois quero utilizar do exemplo para discutir os impactos da medida na atividade publicitária.
Até 2000, todos fomos bombardeados com inúmeras campanhas das marcas de cigarro. Era uma avalanche criativa com tudo que se pode imaginar. Carros, aviões, barcos helicópteros, mulheres bonitas, homens de sucesso, jogadores de futebol, enfim, propaganda de cigarro no Brasil era a síntese da atividade publicitária.
As conquistas eram festejadas, as criações estudadas e as produções verdadeiros exemplos de profissionalismo e superação. Não bastassem os filmes veiculados na televisão, o rádio e a revista eram abrigo obrigatório para os anúncios. Muitas vezes a comunicação extrapolava os limites da mídia convencional e nesse cenário surgiram eventos que fizeram alegria de milhões de brasileiros.
Free Jazz Festival, Carlton Dance, Camel Trophy Rally, Marlboro Country Music são exemplos de eventos de sucesso que promoveram por anos a música, a dança, a aventura e outras tantas manifestações culturais. Foi uma festa para muitas gerações de publicitários que criaram, produziram e ganharam muito trabalhando para vender maços de cigarros.
A festa acabou do dia para a noite. Não que não tenhamos sido avisados do que aconteceria. Tínhamos informações de todo o mundo que emitiam sinais claros que a proibição da propaganda estava mais próxima do que se podia imaginar. Mas não acreditamos e, como sempre ocorre nessas situações, ficamos com “cara de paisagem” quando veio a determinação. Algo muito parecido com o que ocorreu no projeto Cidade Limpa em São Paulo, que varreu do cenário urbano a mídia exterior.
As agências responsáveis pelos projetos de comunicação da indústria cigarreira nacional demoraram um tempo para se adaptarem à nova realidade. No começo, incentivaram a presença nos pontos de venda mas, com o tempo, se conscientizaram que as medidas eram, além de definitivas, progressivas, ou seja, iriam aumentar e atingir até aquilo que parecia protegido da lei.
Disso tudo restou a memória de célebres campanhas que caíram no gosto popular e se transformaram em ícones da criação nacional. “O fino que satisfaz”, “levar vantagem em tudo”, “uma questão de bom senso”, “onde os homens se encontram” e outras tantas assinaturas que povoaram o vocabulário, usos e costumes dos brasileiros.
Não criamos, produzimos ou veiculamos propaganda de cigarro e acho que a sociedade brasileira como um todo amadureceu com isso e nós, publicitários, experimentamos a sensação de sermos privados de parte significativa de nossas receitas e sobreviver assim mesmo.
O curioso disso tudo é que, apesar da proibição da propaganda ter gerado saldo positivo e diminuição do consumo, o Estado brasileiro continua intervindo fortemente na indústria cigarreira nacional.
Há três semanas foram apresentadas as novas mensagens contidas no verso das embalagens dos maços de cigarros (ver abaixo) com fotos e alertas violentos sobre o uso contínuo do fumo. É um exemplo de persistência das autoridades do país em conscientizar a população sobre o quanto faz mal o hábito de fumar.
As embalagens de cigarros são minuciosamente estudas. Os nomes e as cores são testados, o design da embalagem transmite um punhado de sensações, no entanto, no verso (e, porque não, na contramão) de todo esse ambiente de dedicação, o governo obriga a indústria exibir o anti-produto.
Não há paralelo na indústria de bens de consumo de tamanha arbitrariedade, por parte do Estado e tamanha complacência, por parte da indústria. Um acordo tácito de convívio com tudo o que mais desgostamos, a intervenção autoritária com direito a difamação. É comparável à exibição no interior das lojas do Mc Donald’s de trechos do documentário Size Me sobre os efeitos negativos da ingestão continuada de produtos do fast food.
Mesmo assim, do alto de seu gigantismo, a indústria de cigarros no Brasil continua a produzir e vender seus maços e a evocar, sempre que consultada, sobre a tremenda contribuição ao país em impostos e postos de trabalho.
Não sei se é suficiente. Não sei se aceitaria trabalhar em um segmento de mercado obrigado, por força de lei a, na embalagem de seu produto, falar mal de si mesmo. A considerar as mensagens verdadeiras, não consigo entender como as pessoas continuam a trabalhar na indústria cigarreira, caso contrário, de não considerar as mensagens verdadeiras, não consigo entender como as pessoas não se opõem a essa imposição.
Marcas de Cigarros Produzidas no Brasil segundo o Ministério da Fazenda
Souza Cruz S/A
- BELMONT KS SC
- CAMEL KS HL
- CAPRI SLS SKS HL
- CARLTON BLUE KS HL
- CARLTON CREMA KS HL
- CARLTON MINT KS HL
- CARLTON RED KS HL
- CARLTON SILVER KS HL
- CARLTON CAPUCCINO KS HL
- CHARM SLS HL
- CHARM SLS SC
- CONTINENTAL KS SC
- DERBY AZUL KS SC
- DERBY PRATA KS SC
- DERBY VERMELHO KS SC
- FREE 1 KS HL
- FREE 4 KS HL
- FREE 6 KS HL
- FREE KS HL
- FREE KS SC
- FREE SLS HL
- FREE FLEX
- HILTON LS SC 80MM
- HILTON SLS SC
- HOLLYWOOD BLUE KS SC
- HOLLYWOOD GREEN MENTHOL KS SC
- HOLLYWOOD RED KS SC
- HOLLYWOOD CARIBBEAN KS
- HOLLYWOOD TDM AMERICAN KS SC
- HOLLYWOOD TDM AUSTRALIAN KS SC
- HOLYWOOD TDM TURKISH KS SC
- HOLYWOOD ORIGINAL
- KENT 1 KS RC
- KENT 5 KS RC
- KENT 7 KS RC
- LUCKY STRIKE KS HL
- LUCKY STRIKE WHITE KS HL
- MINISTER KS SC
- PLAZA KS SC
- PLAZA SLS SC
- RITZ SLS SC
Philip Morris Brasil Indústria e Comércio Ltda.
- MARLBORO KS FTB
- MARLBORO LI KS FTB
- MARLBORO KS SP
- MARLBORO LI KS SP
- GALAXY SLIMS SP
- GALAXY KS SP
- GALAXY KS FT
- GALAXY 1 KS FTB
- GALAXY 5 KS FTB
- SHELTON SLIMS SP
- SHELTON LS SP
- SHELTON KS SP
- SHELTON LI KS SP
- SHELTON UL KS SP
- L&M SV KS SP
- L&M KS MENTHOL SP
- L&M LI KS SP
- L&M UL KS SP
- PARLIAMENT LS FTB
- PARLIAMENT LI KS FTB
- BENSON & HEDGES SP
- BENSON & HEDGES MENTHOL SP
- DALLAS ES KS SP
- DALLAS KS SP
- DALLAS SV KS SP
- PALACE SLIMS SP
- CHANCELLER EXTRA SLIMS SP
- LUXOR EXTRA SLIMS SP
- LARK KS SP
- MUSTANG KS SP
- NEXT LI KS FT
- NEXT UL KS FT
Cibrasa Ind. e Com. de Tabacos Ltda.
- AMIGO
- CORCEL
- MACEDÔNIA KS
- MACEDÔNIA SUAVE
- SUPER FINOS
- HAITI SUAVE
- FREVO KS
- FREVO SUAVE
- PULLMAN KS
- PULLMAN SUAVE
- PAGODE KS
- PAGODE SUAVE
- OLÉ KS
- OLÉ SUAVE
Cabofriense Ind. e Com. de Cigarros Ltda.
- KIRBY BRANCO
- KIRBY FILTER
- KIRBY PRATA
- SUSSEX BRANCO
- SUSSEX FILTER
- VERONA BRANCO
- VERONA FILTER
- IMPERIAL BRANCO
- BELT BRANCO
- BELT FILTER
- LEGRAND TOTAL FLAVOR
- LEGRAND BLUE
- LEGRAND ULTRA BLUE
Phoenix International Traders Com. e Ind. Ltda.
- EUROSTAR FILTRO BRANCO
- EUROSTAR KING SIZE
- FORRÓ FILTRO BRANCO
- FORRÓ KING SIZE
- GOOL KING SIZE
- SELLETA FILTRO BRANCO
- SELLETA KING SIZE
- SELLETA AIR FILTER
- 2000 SPECIAL BLEND FILTRO BRANCO
- 2000 SPECIAL BLEND KING SIZE FILTER
- EPSON
Fenton Ind. e Com. de Cigarros Imp. e Exp. Ltda.
- COLT
- WL BLUE/SILVER
- WL RED
- SKIN SPECIAL
- SKIN RED
- 777
- PORTO BELO BLUE
- PORTO BELO RED
- UNIVERSAL
Cia. Sulamericana de Tabacos S/A
- YANK CLÁSSICO
- YANK KING SIZE
- FLY CLASSICO
- FLY PREMIUM
- FLY KING SIZE
- WS CLASSICO
- VECTRA CLASSICO
- VECTRA KING SIZE
- MAXXI CLASSICO
- MAXXI KING SIZE
- MAXXI PREMIUM
- RED&BLACK CLASSICO
- RED&BLACK KING SIZE
- ASTRA CLASSICO
- ASTRA KING SIZE
- KAISER CLASSICO
- TOP AMERICA CLASSICO
- TOP AMERICA KING SIZE
- FLY BOX CLASSICO
- FLY BOX PREMIUM
- MAXXI BOX CLASSICO
- MAXXI BOX PREMIUM
Itaba Ind. de Tabaco Brasileira Ltda.
- REI V ouro
- REI V prata
- LEXUS blue
- LEXUS red
- YES BRASIL/SPECIAL EDITION
- YES blue
- YES red
- SABRE ouro
- SABRE prata
- MILHÃO VERMELHO
- MILHÃO AZUL
- JOY BLUE - BOX
- JOY RED - BOX
- TEN OURO - MAÇO
- TEN PRATA - MAÇO
Cibahia Tabacos Especiais Ltda.
- SANTANA
- LENNON
- TRAYLLER
American Virginia Ind. Exp. Tabacos Ltda.
- BACANA FILTRO BRANCO
- BACANA KING SIZE FILTER
- OSCAR PREMIUM KING SIZE FILTER
- OSCAR CLASSIC FILTRO BRANCO
- OSCAR EXTRA AIR FILTER
- INDY FILTRO BRANCO DE LUXO
- INDY KING SIZE FILTER
- SAN MARINO FILTRO BRANCO DE LUXO
- SAN MARINO KING SIZE FILTRO
- SELLETA FILTRO BRANCO DE LUXO
- SELLETA KING SEZE FILTER
- SELLETA AIR FILTER
- SELLETA BOX
- OSCAR CLASSIC FILTRO BRANCO
- INDY
- WEST QUICKIES RED
- MS BOX FILTRO DE CARVÃO ATIVADO
Alfredo Fantini Ind. Com. Ltda.
- MISTRAL EMBALAGEM AZUL
- MISTRAL EMBALAGEM AZUL CLARO
- MISTRAL EMBALAGEM VERMELHO
- TOP LINE EMBALAGEM AZUL
- TOP LINE EMBALAGEM VERMELHO
- SÃO PAULO CHIC
- VIP EMBALAGEM AZUL
- VIP EMBALAGEM VERMELHO
Indústria e Comércio Rei Ltda.
- 21 AZUL
- 21 VERMELHO
- 775 AZUL
- 775 VERMELHO
- KA AZUL
- KA VERMELHO
- MEGA AZUL
- MEGA VERMELHO
- PENTA AZUL
- PENTA VERMELHO
- REI AZUL
- REI VERMELHO
Ciamérica Cigarros Americana Ltda.
- POTRO
- POTRO SUAVE
- TAXY
- FOX
- FOX SUAVE
Golden Leaf Tobacco Ltda.
- DJARUM BLACK
- DJARUM SUPER
- DJARUM SPECIAL
- LA
- LA MENTOL


















23 de Junho de 2008 às 19:51
[...] A indústria de cigarros no Brasil é exemplo do falem mal mas falem … BELMONT KS SC; CAMEL KS HL; CAPRI SLS SKS HL; CARLTON BLUE KS HL; CARLTON CREMA KS HL; CARLTON MINT KS HL; CARLTON RED KS HL; CARLTON SILVER KS HL; CARLTON CAPUCCINO KS HL; CHARM SLS HL; CHARM SLS SC; CONTINENTAL KS SC; DERBY AZUL KS SC … [...]
23 de Junho de 2008 às 21:50
Na imagem da criança perto do cigarro, a fumaça forma um SEX!!! Prop. subliminar??
23 de Junho de 2008 às 10:26
Carla, sinceramente não havia percebido. Não acredito em propaganda subliminar nesse caso. A cena não sugere nenhum apelo sexual, pelo contrário, é grotesca sob todos os aspectos. Mas valeu a observação.
23 de Junho de 2008 às 10:26
De volta ao Bloganda!
André, a minha geração de publicitários já não faz parte da geração da propaganda tabagista e acredito que foi a última influenciada por essas propagandas. Tenho notado que o consumo de cigarros está diminuindo entre os jovens (e fico muito contente com isso).
O questionamento que você propõe no final do texto, sobre trabalhar em cima da embalagem do produto, estuda-la, testa-la… e no final, ter que colocar uma mensagem falando mal do seu produto, é totalmente irônico, contraditório.
Como trabalho com varejo, fico pensando se tivesse que colocar um aviso do tipo “compre com moderação” ou “comprar demais fará falta no final do mês”. De que adiantaria todas as estratégias de marketing que desenvolvemos?
Ainda bem que são dois casos distintos.
Enfim, fiquemos então preparados para a atual moda na propaganda: a da geração saúde.
23 de Junho de 2008 às 18:26
OMS sugere padronização de maços de cigarro
Medida que implica no fim das embalagens atuais, está em análise pelo Ministério da Saúde
Alexandra Bicca
17/06/2008 - 12:26
A indústria tabagista pode sofrer um duro revés, caso a sugestão feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de criar maços genéricos para o cigarro seja adotada pelos países. Isso pode significar o fim das embalagens como as conhecemos, que seriam todas muito semelhantes. No Brasil, onde a lei já é bastante severa e impõe restrições à publicidade do produto, além de obrigar a indústria a imprimir imagens fortes sobre os efeitos danosos causados pelo cigarro em seus maços, a medida não está descartada, mas ainda se sujeitará a análises do Ministério da Saúde, que evita falar sobre o assunto.
Com dois órgãos responsáveis pela implementação das campanhas antitabaco e das medidas de combate ao consumo - Instituto Nacional do Câncer (Inca) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) -, o governo garante que a proposta ainda não começou a ser discutida. O Inca informou que o assunto é muito recente e não ganhou os debates do instituto. Já a Anvisa informa que o fato de ser uma sugestão da OMS não indica que será acatada; mas, caso ocorra, a alteração das embalagens será proposta pelo Ministério e implementada pela agência sem a necessidade de aprovação do Congresso Nacional.
Para Bob Vieira, da NovaS/B - agência que desenvolveu campanha antitabagismo da OMS -, o marketing da indústria é muito forte e atua em várias frentes. Contudo, ele ressalta que a legislação brasileira não consegue agir em algumas delas, como o cinema, pois a maior parte das películas é internacional. Apesar disso, ele acredita que, caso o governo invista maciçamente em campanha de combate ao consumo do cigarro, será possível traçar um paralelo ao marketing pró-tabaco.
Vieira explica que a idéia da campanha desenvolvida para a OMS foi atacar o público jovem, que é de fato o mais assediado pela indústria. Para ele, as campanhas de combate têm o dever de mostrar a verdade sobre o cigarro: ele vicia, causa dependência química e traz enormes danos à saúde.
No caso das embalagens genéricas, ele afirma que essa seria uma medida crucial para acabar com a identificação das marcas. Vieira destaca que qualquer pessoa em qualquer continente consegue identificar algumas marcas, isso porque o investimento da indústria é muito forte e assegura a fidelização do seu consumidor.
“Toda iniciativa de combate ao consumo é bem-vinda e todas devem ter como foco os jovens, pois eles são o alvo da indústria, e as campanhas de combate devem contra-atacar”, disse Vieira.
Ele ainda ressalta que, no caso do Brasil - que possui uma legislação avançada antitabaco -, tais maços virariam “out doors contra o cigarro”, pois em branco, com a marca em letra pequenas e com as fotos de alerta aos problemas de saúde o ato de fumar se tornaria constrangedor.
23 de Junho de 2008 às 18:27
OMS sugere padronização de maços de cigarro
A Fonte a Matéria citada é a revista Meio & Mensagem
23 de Junho de 2008 às 20:03
Reinaldo, que bom que você percebeu a ironia e o contraditório. A revisora dos textos do Bloganda falou a mesma coisa quando leu: “Afinal, você é contra ou a favor da proibição?”. Fiquei sem resposta. Gosto da idéia da propaganda assumir sua parte de responsabilidade e proíbir a propaganda de cigarros, mas sou sincero em admitir que, para mim e para a minha geração de publicitários, foi um impacto muito grande conviver privados de criar para uma indústria que durante muitos anos sustentou a nossa indústria.
23 de Junho de 2008 às 13:03
Será que os diretores destas empresas que fabricam este “veneno” tenham o ábito de FUMAR?