É proibido proibir
Segunda-feira, Setembro 29th, 2008“Sentimo-nos impelidos a medir a audiência web pelas demandas do mercado publicitário. Teremos maior capacidade de medir. É um padrão e dará mais conforto a todos do mercado” Declaração do Presidente do IAB – Interective Advertising Bureau, Paulo Castro para o jornal Meio & Mensagem de 22 de setembro de 2008, página 38.
Sentimo-nos, quem? Teremos, quem? Todos, quem?
Na semana passada, cercado de pompa e circunstância, o mercado publicitário foi apresentado a mais uma tentativa de intervenção: a medição de audiência na web.
Promovida pelo IVC – Instituto de Verificação de Circulação, órgão originado de um tempo onde a desconfiança sobre as tiragens dos veículos impressos era cultivada pelas grandes editoras de revistas e jornais, com objetivo de constranger as pequenas publicações e títulos especializados ao acesso às verbas de propaganda e pelo IAB – Interective Advertising Bureau, a entidade que congrega os provedores de conteúdo da internet com interesse sobre o investimento publicitário dos anunciantes brasileiros.
Pois bem, essas duas entidades promoveram um encontro com o mercado para apresentar o que foi chamada de “demanda da indústria publicitária disposta a oferecer melhores resultados de audiência em campanhas digitais”.
Passou desapercebido por esse Bloganda, o clamor do mercado por uma verificação de audiência diferente do que parece óbvio: quantas pessoas acessaram seu site hoje? Serviço oferecido pelo Google, absolutamente gratuito e de indiscutível qualidade.
Mas, como no caso dos veículos impressos, revistas e jornais, os grandes da internet (UOL, Terra, iG e Yahoo) se uniram para, eles próprios, definirem como se verifica a eficiência de uma campanha postada em site. Como são poderosos e, em alguns casos, endinheirados, promovem o novo método que simula uma união entre todos em prol do mercado publicitário.
Isso é velho mas funciona no mercado brasileiro e não é um fenômeno totalmente nacional, no mundo todo começam a surgir por parte das grandes empresas que investiram alguns bilhões no mercado da internet, tentativas em barrar o crescimento dos pequenos sites de grande sucesso de público, e por conseqüência, de renda publicitária também.
O Bloganda não irá fazer parte dessa metodologia, porque tem como crença os princípios que nortearam a criação da rede mundial e que foi tema do artigo QUEM FUI QUE FEZ que reproduzimos abaixo. Boa leitura.
Quem fui que fez?
O sr. Robert Cailliau é o criador da web. Isso mesmo. Ele é o responsável (alguns chamariam de culpado) pela rede mundial de computadores, a www, que significa World Wide Web.
Em um esforço de síntese, essa é a cronologia da web:
- Em 1964, Paul Baran publica um estudo em que propõe a criação de uma rede de comunicação descentralizada e resistente a ataques nucleares;
- Em 1969, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos cria a Arpanet, primeira rede do mundo;
- Em 1977, Viton Cerf e Bob Kahn demonstram o TCP/IP, que permite a troca de informações entre redes diferentes;
- Em 1990, Tim Berns-Lee e Robert Cailliau colocam no ar o primeiro site do mundo, no endereço http://info.cem.ch;
- Em 1994, a Netscape lança o Navigator, software responsável pela popularização da Internet.
Robert Cailliau e Tim Berns-Lee propuseram o sistema de hipertexto e isso deu origem à World Wide Web. Mas por que falamos dele no Bloganda?
Porque Robert, assim como tantos outros, ainda está vivo e assim continuará por muitos anos (ele ainda tem 60 anos) e, na condição de um dos responsáveis pelo instrumento que promoveu tantas modificações no mundo contemporâneo, sua opinião é ouvida e respeitada.
Para Robert, a rede mundial é uma construção coletiva e a compreensão desse aspecto acelera seus avanços, enquanto a competição entre empresas não traz nenhum benefício prático. Sobre esse aspecto, Robert fala da bolha das empresas “.com”, desastre da economia digital inspirado no desejo de fazer muito dinheiro sem trabalhar muito, exatamente o contrário da rede, que foi fruto de muito trabalho e “coragem”, segundo Cailliau.
Ele admite que tinha consciência sobre o poder da sua invenção no mundo acadêmico, mas “se surpreendeu com as utilidades engenhosas de toda ordem que as pessoas fizeram da web” e com a “capacidade que organizações mundiais formadas por poucas pessoas puderam se constituir e se agrupar, como se estivessem na mesma cidade”.
Robert Cailliau afirma que não eram prioridade as questões comerciais: “nós queríamos fornecer uma ferramenta útil e de qualidade aos pesquisadores”. E que as noções de capitalismo e comunismo são anteriores a era digital: “nós deveríamos entrar em um período de colaboração. A web pode ser uma ferramenta formidável nesse objetivo de preservar a vida sobre o planeta”.
Sobre o futuro da web e da Internet, Cailliau é definitivo “(…) não esqueçamos que, até outra ordem, será preciso comer enquanto estamos diante de nossas telas. Logo, precisamos de alguma maneira preservar o planeta”.
Nada de teorias mirabolantes ou teses definitivas. Tudo é muito simples para Robert Cailliau. Tão simples quanto sua invenção. Ele não tinha idéia que estava entrando para a história. Ninguém tem. Não enquanto se está envolvido em uma idéia, com um objetivo claro. No caso de Robert, nada mais, nada menos do que oferecer para o mundo acadêmico uma ferramenta capaz de facilitar a troca de conhecimento.
Essa é uma lição para todos nós que nos apegamos às idéias, como se fossem as únicas ou as últimas. Algumas vão fazer a diferença em nossas vidas, outras, muito poucas, vão fazer a diferença para o mundo. O importante, nesse processo de criação, é termos a certeza de que somos éticos e responsáveis.




















