Archive for Fevereiro, 2009

O único grito de carnaval possivel é o de horror

Terça-feira, Fevereiro 24th, 2009

Os anunciantes continuam a prestigiar o mais chato, enfadonho e entediante espetáculo de todos os tempos: o carnaval de rua transmitido pela televisão brasileira.

Estamos em pleno carnaval e o aborrecimento com a televisão é total. A maratona de falta de assunto começa na sexta-feira com o desfile, sem graça, das escolas de samba de São Paulo e só termina na quarta-feira de cinzas com a revelação das vencedoras da disputa carioca, tão sem graça quanto a paulista.

Cada vez mais a população despreza as transmissões televisivas de um evento que não foi feito para a televisão. As audiências são pífias e, nesse caso, televisão ligada não significa nada, porque de sã consciência, ninguém suporta a sucessão de mesmas coisas em que se transformaram os desfiles de escolas de samba ou os carnavais de rua do nordeste.

As cenas e os personagens são os mesmos há, no mínimo, 20 anos. Não há novidade, não há notícia. Mesmo assim, uma série de anunciantes investe volume considerável de recursos para participarem do evento.

Escrevo esse artigo antes de verificar quem são os anunciantes desse ano, mas aposto que hoje a noite, ao acender a televisão para confirmar todas as minhas previsões sobre a chatice do carnaval, verei um anunciante de verba pública financiando a festa do Momo.

Caso minhas suspeitas se confirmem prometo que voltarei a carga na próxima semana para repudiar o mal uso da verba pública. Caso contrário, fica o registro que, mesmo os anunciantes privados, que não devem satisfação sobre seus investimentos publicitários, deveriam se atentar para a ineficiência do investimento nas transmissões televisivas do carnaval.

O carnaval é um mal negócio para qualquer marca que não pode se beneficiar de daquele espetáculo grotesco em que se transformaram os desfiles de escola de samba, só comparável em chatice, a queima de fogos do final de ano, outro evento que nossa líder de audiência insiste em considerar comercial.

Como a queima de fogos na praia de Copacabana e o desfile de escolas no Sambódromo atendem ao desejo de transformar a cidade do Rio de Janeiro em algo palatável para o resto do Brasil, resta-nos o ato de desligarmos a televisão e deixarmos que os anunciantes falem para ninguém, afinal, foi exatamente eles (os ninguéns) que foram ouvidos quando da decisão de investir alguns milhões em eventos dessa natureza. Bom carnaval!!

BBB é a PQP

Segunda-feira, Fevereiro 16th, 2009

A TV Globo descobriu uma nova categoria de programação, aquela que não sensibiliza a audiência, mas encanta os anunciantes que, dessa forma, não precisam mais seduzir seus consumidores, e sim, realizar suas fantasias na telinha.

Ao final das edições diárias do Big Brother Brasil 9, a TV Globo insere o nome das empresas que tiveram suas marcas divulgadas naquele programa. A atitude, apesar de contraria às regras do merchandising ou product placement, que pressupõe que o investimento foi tão adequado que dispensaria maiores informações, atende a necessidade dos relatórios de veiculação que acompanham a fatura de cobrança da emissora de televisão.

Dessa forma, junto com a fatura de cobrança, por ter tido a marca inserida no contexto (ou fora dele) do programa que enjaula um número de brasileiros para o deleite de milhões, a TV Globo envia o comprovante de que honrou aquilo que foi prometido. A marca figurou verdadeiramente nas festas de quartas e sábados, nas competições pela liderança e pelo anjo e em um grande número de atividades a que os enjaulados são submetidos.

Não interessa a audiência. Essa nova categoria de anunciantes se preocupa com o fato da marca ter sido exposta e a TV Globo poder provar sua aparição. Se o público está gostando dessa edição, se concorda com as mudanças de regras, se aprova as edições manipuladas que satanizam um participante e endeusam outro, tudo não tem a menor importância. Interessa, de verdade, que os responsáveis pelas verbas publicitárias reúnam seus colegas e familiares e assistam suas marcas submetidas a situações que, em outras épocas, ruborizariam o mais ousado (e inconseqüente) profissional de marketing.

Pelo BBB9 as marcas perdem a vergonha e se mostram sem nenhum critério. Pelo BBB9 as estratégias de construção e consolidação das marcas são jogadas na lata do lixo do Projac. Os discursos técnicos que costumam povoar os Power Points das reuniões gerenciais ou os briefings das agências de publicidade vão por água abaixo em pleno verão tropical.

As agências, sempre aparentemente criteriosas na definição do investimento de seus clientes, perdem o pudor e o primor criativo, tão raro hoje em dia, deixa verdadeiramente de existir em prol da cultura do vale tudo para a marca aparecer.

Não culpo a TV Globo exercendo mais uma vez, com exuberância, seu papel de grande sorvedor dos investimentos publicitários brasileiros, mesmo que para isso tenha que por em risco o certo “padrão de qualidade” que conquistou nos últimos anos. Também não há de se culpar os marqueteiros das marcas, carreiristas que poderão incluir em seus currículos uma visita ao Projac e, quem sabe, um jantar com uma das bundudas de plantão presas na casa.

Mas não consigo deixar de responsabilizar as agências de propaganda que, no mínimo, poderiam adequar melhor as ações das marcas no interior do inferno que é a casa do BBB. Se não conseguem convencer seus clientes do ridículo que é uma marca participar da tortura pública que se transforma, todo ano, o evento, poderia estudá-lo e propor atividades mais relevantes para as marcas e os produtos.

Mérito para o HSBC que há anos instalou um caixa eletrônico que permite aos participantes verificarem seu saldo de estalecas, a moeda do Big Brother.

Dentre todas as notas negativas, destaque para a Niely, uma marca de colorantes para cabelos, entre outros produtos, que na festa do último sábado, dia 14 de fevereiro, introduziu na casa, por total falta de imaginação, garotas que dançavam entre os participantes portando em suas cabeleiras, supostamente, o produto. Uma associação tão difícil de fazer que qualquer conclusão sobre o motivo das dançarinas mereceria atenção do telespectador, que até o momento só tem uma certeza, agência e cliente não merecem o menor respeito.