Hire American
9 de Março de 2009 · 816 views
Das muitas faces da crise, a que mais salta aos olhos é que o mundo, de uma hora para outra, ficou pequeno, mesquinho e intransigente.
Em época de vacas gordas, tudo é lindo, tudo é maravilhoso. O mundo é uma grande casa grande e a senzala é figura do passado. Todos somos iguais e se não somos tão iguais assim, nossas diferenças são valorizadas e cultivadas como experiência de vida e conhecimento.
Mas ao primeiro sinal de turbulência, deixamos de lado as igualdades e nos aprofundamos nas diferenças. Já não há mais espaço para aqueles que, antes representavam o mundo novo, cheio de oportunidades. Cada um que “cante na sua freguesia” e, de preferência, em língua nativa, porque os sons que antes representavam a união de todos, agora soam como tiro que mata as esperanças de sobrevivência.
Na Inglaterra os sindicatos se voltaram contra a contratação de portugueses e italianos, No Japão o primeiro critério para a demissão sumária é não ser japonês. Nos Estados Unidos há uma campanha de televisão bancada por uma tal Coalizão para o Futuro do Trabalhador Americano, algo similar a organizações neo nazistas que assim se pronuncia: “No ano passado 2,5 milhões de americanos perderam o emprego, mas, apesar dos milhões de desempregados, nosso governo continua trazendo 1,5 milhão de trabalhadores estrangeiros por ano para pegar empregos americanos. Será que o seu pode ser o próximo?
No Brasil esse anúncio seria sustado pelo CONAR – Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária, por desrespeitar de forma acintosa o Código Brasileiro de Auto-regulamentação, uma série de princípios éticos que a propaganda nacional respeita e incentiva.
Nos Estados Unidos esse tipo de iniciativa preconceituosa é incentivada pelo Presidente, aquele mesmo que o mundo considerou representar algo de novo. Balela, quando do lançamento de um pacote de incentivo às empresas americanas o Presidente “bossa nova” aprovou uma emenda buy american que determina que todo o ferro, aço e produtos manufaturados usados em projetos do pacote seja produzido nos EUA.
Pessoalmente acho que o anuncio representa a queda da hipocrisia que povoou o mundo nos últimos tempos. Não nos gostamos tanto assim, não nos consideramos irmãos, somos avessos às diferenças culturais, religiosas e de raça e, minimamente, nos suportamos. Na carestia, que é o melhor momento para mostrarmos o melhor de nós, voltamos a ser o que sempre fomos. Seres egoístas, medrosos e intransigentes.
O ruim disso tudo é que a propaganda é um eficiente instrumento de propagação de idéias. Na verdade, a propaganda assume seu papel histórico de vender idéias e não produtos.
O anúncio Hire American é a reedição das cruzadas da Idade Média, a primeira campanha de propaganda que o mundo tem notícia, por coincidência, também essa tinha um caráter sectário e preconceituoso.













Terça-feira, 10 Março, 2009 às 12:33
Excelente este texto.
Realmente direto ao ponto.
Vou colocar em meu blog um trecho com os devidos créditos e o link para matéria completa aqui no Bloganda.
Terça-feira, 10 Março, 2009 às 12:37
[...] No Brasil esse anúncio seria sustado pelo CONAR…(matéria completa aqui) [...]