Archive for Março, 2009

A furiosa toca tambor

Segunda-feira, Março 16th, 2009

Terminada a maratona que é o carnaval brasileiro, esse Bloganda volta ao tema para fazer alguns registros, que se em nada tem relação com a formação do profissional de propaganda, em muito tem relação com a cultura brasileira.

Furiosa é como é chamada a bateria da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro e Tambor o enredo da agremiação campeã do carnaval do Rio de Janeiro em 2009. Em São Paulo, a Mocidade Alegre, do bairro do Limão, com um enredo inspirado no Coração sagrou-se campeã. Em comum, além do aparente “tudo igual” em que se resume o desempenho de uma escola de samba, as duas, Salgueiro e Mocidade possuem um presidente mulher, ou seja, uma presidenta.

Não sei o que isso pode significar, mas sem dúvida, muda a perspectiva da participação feminina no carnaval brasileiro e, quem sabe, mude a perspectiva da mulher brasileira na nossa sociedade.  Executivas a frente de empresas de entretenimento, essas mulheres se diferenciam das lideranças empresariais convencionais porque fazem parte das localidades onde essas agremiações estão instaladas, o que se convencionou chamar no Brasil, de comunidade.

Pois essas duas mulheres “são da comunidade” e como tal, administram suas respectivas escolas com a eficiência de quem conhece, em profundidade, como motivar e com quem podem contar. Ou seja, sabem apertar os botões certos para alcançarem bons resultados.

Nós, profissionais de propaganda, podemos nos inspirar nesses ensinamentos. Não é tão absurdo considerar que o trabalho de comunicação obtenha sucesso proporcional ao conhecimento que detemos sobre a história e trajetória do produto. Também não parece muito fora de contexto encarar o fato de que uma campanha publicitária precisa motivar todos os públicos que se relacionam com a marca.

Ainda sobre o carnaval, tratado aqui no artigo O ÚNICO GRITO DE CARNAVAL POSSÍVEL É O DE HORROR (23/02), cabem algumas outras barbaridades. Quem são esses jurados? Devem ser os mesmos entrevistados pelos institutos de pesquisa, afinal ninguém os conhece. Quais os critérios para as notas? Como uma escola de samba recebe 10 de um jurado e 9,9 de outro, no quesito bateria? O que pode ter tirado 0,1 da nota de uma bateria de escola de samba? A resposta não pode ser a desafinação, porque essa é a condição para o sucesso de uma bateria, ser desafinada.

São mistérios que tendem a se tornar mais misteriosos na medida em que as mulheres assumem o controle da principal festa popular brasileira e, todos sabem, mulheres gostam de cultivar segredos.

Fica a esperança e o desafio para que nos próximos carnavais, as mulheres, líderes das escolas de samba das principais cidades brasileiras consigam reverter a falta de expectativas em que se transformou o desfile de carnaval no Brasil, uma sucessão de mesmices, um status quo que só conseguirá ser transposto com muito trabalho e criatividade feminina. Que venham as furiosas.

Hire American

Segunda-feira, Março 9th, 2009

Das muitas faces da crise, a que mais salta aos olhos é que o mundo, de uma hora para outra, ficou pequeno, mesquinho e intransigente.

Em época de vacas gordas, tudo é lindo, tudo é maravilhoso. O mundo é uma grande casa grande e a senzala é figura do passado. Todos somos iguais e se não somos tão iguais assim, nossas diferenças são valorizadas e cultivadas como experiência de vida e conhecimento.

Mas ao primeiro sinal de turbulência, deixamos de lado as igualdades e nos aprofundamos nas diferenças. Já não há mais espaço para aqueles que, antes representavam o mundo novo, cheio de oportunidades. Cada um que “cante na sua freguesia” e, de preferência, em língua nativa, porque os sons que antes representavam a união de todos, agora soam como tiro que mata as esperanças de sobrevivência.

Na Inglaterra os sindicatos se voltaram contra a contratação de portugueses e italianos, No Japão o primeiro critério para a demissão sumária é não ser japonês. Nos Estados Unidos há uma campanha de televisão bancada por uma tal Coalizão para o Futuro do Trabalhador Americano, algo similar a organizações neo nazistas que assim se pronuncia: “No ano passado 2,5 milhões de americanos perderam o emprego, mas, apesar dos milhões de desempregados, nosso governo continua trazendo 1,5 milhão de trabalhadores estrangeiros por ano para pegar empregos americanos. Será que o seu pode ser o próximo?

No Brasil esse anúncio seria sustado pelo CONAR – Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária, por desrespeitar de forma acintosa o Código Brasileiro de Auto-regulamentação, uma série de princípios éticos que a propaganda nacional respeita e incentiva.

Nos Estados Unidos esse tipo de iniciativa preconceituosa é incentivada pelo Presidente, aquele mesmo que o mundo considerou representar algo de novo. Balela, quando do lançamento de um pacote de incentivo às empresas americanas o Presidente “bossa nova” aprovou uma emenda buy american que determina que todo o ferro, aço e produtos manufaturados usados em projetos do pacote seja produzido nos EUA.

Pessoalmente acho que o anuncio representa a queda da hipocrisia que povoou o mundo nos últimos tempos. Não nos gostamos tanto assim, não nos consideramos irmãos, somos avessos às diferenças culturais, religiosas e de raça e, minimamente, nos suportamos. Na carestia, que é o melhor momento para mostrarmos o melhor de nós, voltamos a ser o que sempre fomos. Seres egoístas, medrosos e intransigentes.

O ruim disso tudo é que a propaganda é um eficiente instrumento de propagação de idéias. Na verdade, a propaganda assume seu papel histórico de vender idéias e não produtos.

O anúncio Hire American é a reedição das cruzadas da Idade Média, a primeira campanha de propaganda que o mundo tem notícia, por coincidência, também essa tinha um caráter sectário e preconceituoso.