Às voltas com a escravidão
6 de Abril de 2009 · 631 views
“Atletas do Flamengo sofrem, mas dão exemplo de profissionalismo” essa foi a manchete do Caderno de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, do dia 19 de março de 2009. Sim 2009.
Bem vindos à escravidão. Convencidos de que não há melhor regime nas relações de trabalho do que a escravidão, os jogadores de basquete do Clube de Regatas Flamengo, optam, portanto voluntariamente, pelo trabalho não remunerado em troca das migalhas do sucesso.
Difícil equação. Esqueceram de avisar-lhes que o basquete não traz nenhum sucesso nesses trópicos a não ser que você chore compulsivamente por qualquer motivo, seja candidato a cargo público e tenha o beneplácito da principal emissora de televisão do país. Nesse caso e só nesse caso, você pode se chamar Oscar e ser tratado como uma espécie de Bobo da Corte.
Caso contrário, seus dias de glória são tão efêmeros quanto a matéria do jornal paulistano que tentava estabelecer uma relação entre a humilhação e o profissionalismo.
Não é objeto desse Bloganda o trato das questões do trabalhismo desportivo, mas está inserido na matéria um dos piores conceitos do mundo capitalista: o sacrifício pelo trabalho. Uma besteira, que devemos tratar nesse espaço porque encontra eco, até mesmo, na atividade publicitária.
Pensamos e nossos empregadores nos fazem pensar, que devemos algo a quem compra nossa capacidade de trabalho. Pois não devemos nada. Muitas vezes somos credores, quando colocamos nosso talento a serviço da empresa com competência e ética, não necessariamente nessa ordem.
Quando pensamos que devemos, por falta de talento, competência ou ética, nossos contratantes têm todo o direito de dispensar nossos desserviços e contratar outro melhor. Portanto não há dividas nas relações trabalhistas. Trabalhamos porque essa é a forma de sobrevivermos.
Portanto ninguém joga basquete porque gosta. Joga, de maneira profissional para sobreviver e deposita no exercício dessa atividade talento, competência e ética ou a falta de talento, a pouca competência e a inexistência da ética. Essa última situação parece que se aplica aos jogadores do Flamengo.
Não é exemplo de nada trabalhar sem receber, quando se devia receber. Isso não significa o descrédito no trabalho voluntário e militante. Esse é justo e, de preferência, deve ser exercido em conjunto com as atividades remuneradas, porque só dessa forma se mantém ético.
Quando os jogadores de basquete do Flamengo decidem continuar jogando e conquistando títulos sem a remuneração combinada com o clube, estão incentivando um tipo de sociedade contra a qual nós, seres humanos e, portanto equipados de inteligência, lutamos há muitos e muitos anos.
Os futuros profissionais de propaganda devem estar alertas contra a falsa idéia de que no começo da carreira tudo é válido para a conquista de um lugar ao sol no disputado mercado de trabalho. Todos, sem exceção, irão trabalhar muitas horas por dia, jantar muita pizza nos escritórios, refazer muitas vezes a mesma coisa, ouvir muita bronca de chefe, sofrer algumas injustiças, engolir uma infinidade de sapos, mas tudo isso no limite da ética. Recebendo o que foi inicialmente combinado. Nunca de graça.
Cuidado com a exploração da sua força de trabalho. Isso é assédio moral, isso é escravidão e, em nada se aproxima do divulgado profissionalismo que o jornal O Estado de S. Paulo reputou aos atletas do Flamengo.
Tags: atletas, escravidão, ética, flamengo, OESP, oscar, remuneração, salário, sucesso, talento, trabalho













Terça-feira, 7 Abril, 2009 às 7:35
Assino em baixo em exatamente tudo que foi escrito acima.
Não poderia ter se expressado de maneira mais clara e verdadeira.