Archive for Julho, 2009

Propaganda Funcional

Terça-feira, Julho 28th, 2009

Propaganda funcional é todo o anúncio, independente do meio, que tem como objetivo apresentar aspectos funcionais do produto anunciado. Essa prática é cada vez mais comum, principalmente na televisão brasileira, e significa o último degrau da decadência da nossa propaganda.

Assistir televisão nesses últimos tempos é um exercício de paciência, seja pela qualidade da programação, seja pela mediocridade dos anunciantes. Sobre a programação não há muito que fazer, a não ser denunciar, nesse e em outros espaços os abusos dos controladores das emissoras, preocupados exclusivamente, com os pontos de audiência que em nada retratam a satisfação do consumidor.

Sobre a mediocridade dos anunciantes e seus anúncios medonhos, podemos sim levantar nossas vozes e cobrar qualidade da propaganda. Parte significativa dos produtos anunciados cumpre um roteiro de apresentação de atributos funcionais. Um serve para evitar a caspa, outro para alisar os cabelos, um terceiro para melhorar o funcionamento do intestino. Há um com menos calorias, também há aquele que divulga a taxa de juros e o valor da prestação e o que evita os desabores de uma gripe indesejada em pleno inverno tropical.

Todos vão à TV falar sobre si. São auto-referentes e tendem a exagerar os benefícios que proporcionam a favor de se apresentarem como funcionais. Poucos anunciantes na atual safra de comerciais televisivos resgatam ou propagam os valores das marcas. Por serem poucos, saltam aos olhos.


A nova campanha do Bradesco é um primor. Desenvolvida na esteira do conceito Bradescompleto, a agência NeogamaBBH posicionou o banco através da palavra PRESENÇA. Se o Bradesco foi o banco completo por alguns anos, esse atributo tem como conseqüência presença garantida nas principais atividades econômicas do Brasil. Genial.

O filme é perfeito. Um estádio de futebol onde “brotam” as PRESENÇAS do Bradesco sob os olhos incrédulos de uma massa de espectadores que torcem pelo sucesso das iniciativas. Bem produzido, o anuncio entra para o rol das criações bem estruturadas por um planejamento que honra a atividade e produzidos sob a exigência de qualidade. Aqui o bom é inimigo ótimo e o que agência e anunciante queriam era a segunda opção, sem concessões.

Tomara o Bradesco tenha fôlego para continuar veiculando e nos brindando por criações que dignificam nossa profissão, senão estamos fadados a assistir anúncios que insistem em nos apresentar os porquês das coisas como se não soubéssemos o motivo pelo qual fazemos nossas escolhas. É bom lembrar, propagandas ruins fazem com que as marcas que as patrocinam sejam abandonadas pelos consumidores. Que assim seja!

Audiência e Relevância

Segunda-feira, Julho 20th, 2009

Todos nós, profissionais de propaganda, em algum momento, vivenciamos o conflito entre audiência e relevância. Há duas semanas o Cruzeiro Esporte Clube, tradicional time de futebol de Belo Horizonte, disputou partida pela final da Copa Libertadores da América, contra o Estudiantes de La Plata, na Argentina.  Quando esse artigo for publicado já saberemos quem é o novo campeão das Américas, depois da partida “de volta” em Belo Horizonte, dia 15 de julho.

Mas vale a história de que na quarta-feira, dia 8 de julho, a principal emissora de televisão do Brasil, optou por apresentar um jogo sem nenhuma importância entre Corinthians e Fluminense, a apresentar a primeira partida da final do principal campeonato das Américas e o fez amparada da lógica burra que favorece a audiência em detrimento da relevância.

Ao apresentar um jogo sem nenhuma importância não só para aqueles que não torcem para um dos dois times, mas e principalmente, para quem é corinthiano ou “pó de arroz”, a principal TV brasileira presta um desserviço à população brasileira, incompatível com sua condição de concessionária de um serviço público.

O jogo entre o Cruzeiro e o Estudiantes foi o começo da disputa final de um campeonato que desde fevereiro reúne, nada menos, do que 5 times brasileiros entre um universo de equipes de todos os países da América do Sul e ainda os representantes do México. Durante os últimos 6 meses equipes de São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Minas Gerais se dedicaram pelo direito de disputar o título de campeão do mundo com o Barcelona em Tóquio em dezembro.

Ter um brasileiro na final é uma vitória sobre a hegemonia argentina na competição. Mas tudo indica que as ameaças às hegemonias não é assunto da predileção da líder de audiência, que se mantém nesse status graças às opções que faz exclusivamente pela quantidade de aparelhos sintonizados na emissora, independente das opções mais relevantes que se apresentam.

As críticas a uma programação orientada exclusivamente pela audiência é uma constante na crônica televisiva no Brasil e, em casos como esse, é pertinente a reflexão. Não há comparação entre a motivação das duas partidas, não há justificativa em se abrir mão de uma final de Libertadores da América com participação de time brasileiro para se assistir o quase “amistoso” entre cariocas e paulistas.

Se o mercado publicitário não se manifestar sobre esse tipo de orientação, os controladores da programação correm o risco de se sentirem corretos em suas desvairadas decisões. É papel das agências e dos anunciantes alertarem os veículos de comunicação sobre os desvios de propósitos de suas opções. Quem financia a programação deve estar atento à conduta dos veículos e acusarem os desvios de propósitos da programação. Somos atacados como profissionais porque somos omissos em casos como esse. Os consumidores devem ser tratados com respeito e respeito, nesse caso, é privilegiar a relevância da programação, mesmo que isso signifique alguns pontos a menos na audiência. Somente dessa forma estaremos contribuindo para o aprimoramento da sociedade brasileira.