Archive for Dezembro, 2009

Contra as retrospectivas e a favor da avaliação

Terça-feira, Dezembro 22nd, 2009

As retrospectivas ao final de cada ano são momentos extremos de falta de assunto.
Revistas, jornais e TVs promovem um amontoado de notícias, supostamente relevantes para o entendimento do ano e exibem o conteúdo com ares de espetáculo, quando, na realidade, não passam de um prato requentado, sem nenhum caráter jornalístico.

As retrospectivas só tem valor se forem acompanhadas de uma análise crítica dos acontecimentos, com a opinião de especialistas e situadas em um contexto histórico que seja de conhecimento do receptor da mensagem. Caso contrário se transformam naquilo que verdadeiramente são, uma forma de ocupar tempo e espaço em veículos que supõe não ter mais nada para contar à sua audiência.

Esse Bloganda não tem mais assuntos para 2009 a não ser pelo fato estarmos encerrando um ano onde ficou ainda mais notória a incapacidade do mercado publicitário brasileiro em inovar. Não há novidades na TV, no jornal, na revista ou no rádio. Agências e anunciantes contemplam velhas fórmulas e se rendem às mesmices quanto admitem que a cobertura é importante em tempos de vacas gordas e fundamental em tempos de vacas magras. Ou seja, nada muda, porque a “mídia da mãe” é a única maneira de fazer o negócio da propaganda continuar prosperando.

Nos eventos dirigidos aos publicitários estamos de “SACO CHEIO”, isso mesmo, em letras maiúsculas, dos paladinos da modernidade, arautos dos novos tempos que são capazes de divulgar idéias sobre inovação mas incompetentes para, verdadeiramente, aplicá-las.

O modelo de negócio da propaganda brasileira é um modelo velho e arcaico que só interessa aos projetos hegemônicos dos grandes veículos de comunicação. É um modelo incapaz de assumir os novos formatos, as novas mídias, as novas plataformas, pelo simples fato de não saber como se remunerar. Nos últimos anos, negando a tradição de pensar sobre o que falamos, repetimos a ladainha de que o modelo brasileiro é um exemplo para o resto do mundo e que a remuneração sobre a compra de espaços publicitários é o melhor formato que existe.

Mentira, não é. Nas novas plataformas de comunicação não há espaços para serem vendidos, então como se remunerar propondo inovações de comunicação para os anunciante. Fácil, não se propõe nada.

Esse Bloganda continuará em 2010 a propor uma reflexão sobre os efeitos do mercado sobre a formação do profissional de propaganda, continuará defendendo nossa categoria profissional e sua valorização através da qualificação e, por que não, da regulamentação. Continuaremos semanalmente a tratar de temas que direta, ou indiretamente, influenciam a propaganda brasileira. E, principalmente, continuaremos a propor uma constante avaliação das nossas fortalezas e fraquezas, pois essa é a única forma de continuarmos evoluindo e inovando, assim como fazem os anos. Um feliz 2010.

Próxima edição dia 4 de janeiro de 2010.

A ética e o companheirismo

Segunda-feira, Dezembro 14th, 2009

Forjei na propaganda relações que, se não tão íntimas, foram valiosas para me considerar uma pessoa querida pelos meus pares e capaz de provocar mobilizações em prol de idéias para o aprimoramento da nossa profissão. Isso parece companheirismo, mas para nós publicitários, é ética.

Somos mais éticos do que companheiros. A afirmação é forte, mas é verdadeira. Muitas atividades profissionais se pautam pelo companheirismo. Médicos, advogados e engenheiros, são companheiros uns dos outros.

Isso os torna imunes aos ataques da sociedade que não consegue ver prosperar denuncias das mais diferentes ordens, tais como, erros profissionais, cobranças indevidas, reservas de mercado entre outros.

Nós publicitários, desenvolvemos a capacidade de avaliação sobre o trabalho alheio sem restrições. Por isso promovemos e participamos de inúmeros festivais onde submetemos nossos trabalhos à apreciação de outros publicitários e encaramos os resultados com naturalidade quando não somos premiados, e com festa quando conquistamos alguma láurea.

É difícil imaginar médicos submetendo seus procedimentos para um grupo de jurados médicos isentos. O que acontece, com alguma freqüência, são os congressos médicos onde a apresentação de trabalhos é patrocinada por laboratórios farmacêuticos interessados na divulgação de suas patentes.

Não satisfeitos com os Festivais, mantemos nosso próprio órgão fiscalizador, capaz de retirar de veiculação qualquer anúncio que não respeite o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. Não abrimos sindicâncias estéreis. Qualquer consumidor desgostoso dos rumos da propaganda reclama e é imediatamente atendido.

Experimentem essa agilidade nos Conselhos Regionais de Medicina ou Engenharia e na Ordem dos Advogados do Brasil. Os companheiros se protegem em detrimento da ética.

Por isso o jovem profissional de propaganda precisa entender desde cedo que algumas das nossas atitudes são orientadas pela ética e não pelo companheirismo. Somos vaidosos, valorizamos nossas conquistas e conseguimos destacar do coletivo aquilo que foi pensado e executado individualmente. Não há ressentimentos nesse comportamento que é ético, porém desprovido do sentido de companheirismo que conhecemos que enaltece o coletivo e não o individual. Isso é o personalismo da propaganda e é o que provoca o culto às personalidades. Faça o teste, sua mãe conhece mais publicitários famosos do que cardiologistas.

Expomo-nos através dos trabalhos ao juízo permanente da sociedade e dos nossos pares e não nos escondemos das conseqüências. Sofremos a condenação à propaganda de cigarros e a extinção da mídia exterior na cidade de São Paulo. Em ambos os casos debatemos o tema com a maturidade necessária sem ceder das nossas posições, mas cientes das responsabilidades e sem os escapes das grandes corporações.

O espaço que o debate sobre a propaganda ocupa no cenário nacional é diretamente proporcional à ética da atividade. Só em ambientes onde as relações éticas se sobrepõe ao companheirismo a discussão prospera e todos nós, profissionais de propaganda, devemos nos orgulhar disso.