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NO BIG BROTHER CHILENO NÃO SE BEBE VINHO

Quarta-feira, Setembro 8th, 2010

Há uma discussão em processo no Chile que divide em grupos aqueles que defendem a distribuição de vinho para os 33 mineiros presos a 700 metros de profundidade e os contrários à regalia.

Nos próximos dias 18 e 19 de setembro o Chile comemora sua independência. São 200 anos como nação autônoma e isso está sendo muito festejado em todo o país. Haverá uma grande celebração popular e uma das promessas é um brinde nacional pela data histórica.

Acontece que os 33 mineiros trancafiados debaixo da terra, vitimas do descaso oficial e privado quanto aos processos de segurança da principal atividade econômica do Chile, não poderão comemorar a data com o tradicional vinho nacional, isso porque há uma lei no Chile que proíbe bebidas alcoólicas no interior das minas.

Fazer com que toneladas de terra desabem sobre a cabeça dos trabalhadores não está proibido, assim como também não há restrições ao fato dos 33 homens terem de permanecer por mais, no mínimo dois meses, a temperaturas acima de 30 graus e no escuro a espera da perfuração de buracos (3 ao todo) para o resgate.

Não tenho idéia dos efeitos do vinho sobre os mineiros, por isso me isento de uma posição convicta, mas gosto da polêmica. Dar ou não dar vinho para os trabalhadores?

A compreensível regra que proíbe bebidas alcoólicas no interior das minas se aplica ao caso? Os mineiros devem ser tratados como trabalhadores expostos ao regramento vigente ou como vitimas, reféns da situação onde qualquer conforto é bem vindo?

Não se sabe quais os efeitos do vinho sobre os trabalhadores que completaram nessa semana, dia 5, um mês de clausura e 15 dias de inesperada fama. O pátio onde acontece as escavações para o resgate se transformou em um set de filmagem. Há jornalistas do mundo inteiro, parentes próximos e distantes, técnicos em perfuração, técnicos em sobrevivência, religiosos de todos os tipos e curiosos de todas as espécies.

Os mineiros assistiram, ao vivo, a derrota da seleção chilena em um amistoso de futebol no dia 7 de setembro e sua torcida foi captada pela câmera de vídeo que acompanha esse Big Brother Chileno com requintes de mobilização nacional.

Em, no máximo, 2 meses esses 33 homens estarão livres e serão içados para a superfície e, diferente dos BB´s tradicionais, o último não será vencedor de uma bolada milionária, pelo contrário, todos serão derrotados por uma sociedade de exploração e mídia, capaz de transformar uma desgraça em espetáculo.

Ao serem resgatados estará acabado o “dia de princesa” de cada um dos 33 marmanjos. Todos estarão de volta às suas rotinas “sem graça”. Em um período máximo de dois meses, o mesmo tempo que durará o show e que parece uma eternidade, todos estarão esquecidos pelos chilenos e pelo mundo e essa eternidade vai parecer um abrir e fechar de olhos.

Por pouco mais de 15 dias, esses 33 homens viveram uma experiência impar de organização e solidariedade. Estavam desaparecidos e ninguém sabia se vivos ou mortos. Nesse período colocaram em prática aquilo que de melhor existe na raça humana, a capacidade de superar as adversidades com criatividade. Não tiveram para isso, nenhum tipo de colaboração externa contaram somente com seu bom senso e possivelmente solucionaram suas pendências com mais imaginação do que aqueles que reduzem o assunto à distribuição de vinho pelos 200 anos de liberdade.