Archive for 2012

A ASSUNÇÃO DA CLASSE C

Terça-feira, Abril 17th, 2012

Na detalhada análise da nova grade de programação da TV observa-se que o fenômeno da ascensão da classe C padece de um equivoco semântico, pois o desembarque no consumo não se trata de um processo espontâneo das camadas mais populares dos brasileiros e sim um projeto elaborado pelos poderes hegemônicos da comunicação nacional, portanto uma assunção.

Aos esquecidos é bom lembrar que é sutil a diferença entre ascensão e assunção e está no fato de que o primeiro processo se dá por capacidade própria. Jesus ascendeu aos céus por seus próprios meios. Enquanto na segunda situação há a interferência fundamental de um terceiro. Maria foi assumpta pelo poder de Deus. Consta que levada por anjos.

Estabelecidas as diferenças, voltemos à classe C. Para os meios de comunicação, notadamente a TV, a classe C é incapaz de ascender socialmente, mesmo que brindada com uma maior e mais igualitária distribuição de renda. Portanto necessita de uma programação recheada de situações onde prevalece a estética do mau gosto, para, por assim dizer, ser carregada.

Por isso somos bombardeados, na ficção ou no noticiáiro, com uma série de situações inusitadas que em nada refletem a vida do brasileiro comum, a não ser na cabeça dos executivos que confundem distribuição de renda e acesso ao consumo com a proliferação do bizarro.

Baseados em pesquisas (?) a TV brasileira se vangloria de estar sintonizada com as camadas mais populares pelo fato de, supostamente, retratar uma realidade que até então ignorava solenemente. Pois seria mais produtivo continuar no obscurantismo da ignorância a retratar uma gente que não existe de verdade.

Toda essa emergencial preocupação com a classe C é resultado da diminuição das audiências televisivas em todas as classes sociais e da tentativa de fazer convencer os anunciantes que a mudança do conteúdo acompanha os gostos (SIC) do novo consumidor tupiniquim que, dessa forma, voltaria aos braços da telinha e justificaria a manutenção dos investimentos publicitários. O curioso é que no início dos anos 80 a TV experimentou a fórmula “O Povo na TV” com resultados desastrosos. Por que agora seria diferente?

Em nome da ascensão desacreditada se pratica a assunção como forma de garantir o controle da situação. No entanto esquecem os controladores da programação do senso crítico da audiência, sobre o qual nos ensinou Carlos Eduardo Lins e Silva no livro Muito Além do Jardim Botânico, Summus Editorial: “(…) que as análises dos fenômenos da comunicação fujam dos esquemas simplistas dos gabinetes e caiam na vida real e complexa das pessoas que estão no mundo”. Que assim seja.

O LOBBY DO MURUQUI

Segunda-feira, Abril 2nd, 2012

 

Alheio às recomendações de chute no traseiro, lei geral da Copa, cronograma dos estádios ou precariedade de infra-estrutura, o Tatu-Bola (ele mesmo) tornou-se o mascote da Copa do Mundo do Brasil em 2014.

A conquista foi ao estilo “onça pintada”, na calada da noite, porque nenhum brasileiro vivo poderia imaginar que o país, com uma das maiores diversidades de fauna do mundo, pudesse considerar a possibilidade do Tolypeutes tricinctus, nome de batismo do Tatu-Bola, sagrar-se símbolo do mais importante evento de futebol do planeta.

Passado o susto, que periga acelerar a extinção do Tatu-Bola, começa a campanha pelo mascote das Olimpíadas Rio 2016. Pelo andar da carruagem, nada surpreenderá se a escolha recair sobre algum animal tão distante do imaginário nacional como o convocado para a Copa do Mundo de Futebol.

Mas como as coisas ainda podem ser piores no universo olímpico, saiba que existe uma forte campanha, apoiada por empresários do porte de Eike Batista para que o escolhido seja o Muriqui, o maior primata das Américas, que consegue ser mais desconhecido e dizer menos à população brasileira que o Tatu-Bola.

A idéia do Muriqui como mascote olímpico tem o apoio do governo carioca e foi alvo de uma campanha de mídia que já consumiu R$ 400 mil. Consta que o interesse repentino do Grupo EBX de Eike Batista pelo primata está no corredor ecológico do Muriqui, uma extensa área de Mata Atlântica no norte fluminense onde vive o macaco. Caso esse seja mesmo o mascote das Olimpíadas, o investimento de R$ 2,3 milhões na recuperação da área estará amparado por um grande apelo popular.

Não estranha o fato de ter um macaco como símbolo dos jogos olímpicos. Confesso que é mais natural para nós brasileiros adotarmos um primata como mascote do que algo sem graça como o Tatu-Bola. Porém creio que antes do Muriqui há outras espécies que habitam o inconsciente dos brasileiros, por exemplo, o Mico Leão Dourado.

Tão macaco e tão brasileiro quanto o Muriqui, mas sem prestigio no mundo empresarial, o Mico Leão Dourado é a resposta natural para a pergunta sobre qual primata melhor representa o espírito de preservação das nossas florestas.

Os bem mais modestos defensores do Mico Leão Dourado amargam as conseqüências do nome do bichinho. Por mais que todos os brasileiros vislumbrem a possibilidade de “pagar o mico” com a estrutura do Rio de Janeiro para as Olimpíadas, é bom lembrar que a expressão não tem nada a ver com o primata da Mata Atlântica e sim com o jogo do Mico onde o macaco é a única carta sem par, ou seja, quem fica com ela “paga o mico”. 

O Mico Leão Dourado está nas notas de R$ 20,00 e junto com o Beija-Flor, a Tartaruga de Pente, a Garça, a Arara, a Onça Pintada e a Garoupa frequenta  o dia a dia da população brasileira.

As Olimpíadas Rio 2016, assim como a Copa do Mundo 2014, são motivos de orgulho para o Brasil. Os mascotes desses eventos são mais do que capricho de empresários ambientalistas e ambientalistas empresários, são um reflexo do espírito de um povo, o que, definitivamente, não se coaduna com o já escalado Tatu-Bola. Tomara prospere o bom senso ao invés do lobby. Esse seria um bom começo para os Jogos Olímpicos.