Congresso chapa branca para um mercado chapa quente

12 de Maio de 2008 · 1 Comentário · 299 Views

O IV Congresso Brasileiro de Publicidade tem site, preço e convidados, mas falta o principal, a vontade de debater o modelo de negócio da propaganda brasileira.

As últimas notícias dão conta que o IV Congresso Brasileiro de Publicidade (www.congressodepublicidade.com.br) toma a forma de um encontro entre as lideranças do mercado publicitário, sem considerar o caráter democrático que um evento com essas pretensões poderia assumir.

Depois de 30 anos de espera por discutir os temas relevantes da atividade publicitária no Brasil, promovemos um encontro sem surpresas e, possivelmente, sem debates. O assunto mais espinhoso na pauta das principais agências de propaganda e anunciantes foi cortado do encontro e o painel O modelo brasileiro de remuneração das agências de publicidade cedeu lugar
ao inexpressivo A valorização, a prosperidade e a rentabilidade da indústria da comunicação.

O pretexto para tal mudança, segundo a coordenação do evento, é deixar o assunto remuneração no ambiente do Conselho Executivo das Normas Padrão (CENP). Como assim?

O fato é que as lideranças do mercado publicitário, incluindo os grupos de veículos de comunicação, não querem discutir o assunto. Essa é a única justificativa para que a pauta tenha sido modificada apenas duas semanas após o lançamento do Congresso. E a explicação é a pior que poderia ser dada, afinal o tema do painel Eficácia no Planejamento e Compra de Mídia é discutido pelos Grupos de Mídia do Brasil e não foi retirado do Congresso, inclusive tendo como Presidente do painel o publicitário Angelo Franzão Neto, Presidente do Grupo de Mídia SP. O tema do painel Liberdade e Expressão Comercial é discutido pelo Conselho Brasileiro de Auto-regulamentação Publicitária (Conar) e não foi retirado do Congresso, tendo como Presidente do painel o publicitário Gilberto Leifert, Presidente do Conar. O tema Marketing de Relacionamento é discutido pela Associação Brasileira de Empresas de Marketing Direto (Abemd) e não foi retirado do Congresso, tendo como presidente do painel o publicitário Efraim Kapulski, Presidente da Abemd. O tema do painel Prestadores de Serviços Especializados e sua Relação com Agências e Clientes é discutido por diversas entidades, inclusive pela Associação das Produtoras de Som (Aprosom) e não foi retirado do Congresso, tendo como Presidente do painel o publicitário Maurício Tagliari, Presidente da Aprosom. O tema do painel Marketing Promocional é discutido pela Associação de Marketing Promocional (Ampro) e não foi retirado do Congresso, tendo como Presidente do painel o publicitário João Carlos Zicard, Presidente da Ampro. O tema do painel A Realidade dos Mercados Regionais é discutido pela Federação Nacional de Propaganda (Fenapro) e não foi retirado do Congresso, tendo como Presidente do painel o publicitário Ricardo Nabnan, Presidente da Fenapro.

Portanto, os exemplos acima são a prova que a organização do IV Congresso ou desqualifica a profundidade dessas entidades na discussão dos temas ou não quer, deliberadamente, abordar o tema remuneração, que convenhamos, há tempos não é tratado no ambiente do CENP como querem nos convencer.

Enfim, 30 anos depois, somos apresentados a um encontro que vai evitar qualquer discussão sobre o modelo do negócio da propaganda no Brasil e fortalecer as idéias que prosperam há 30 anos, sem oportunidade ao debate e ao contraditório. As inscrições têm o valor de R$ 3.450,00 e afastam a possibilidade de inclusão de grande parte dos jovens publicitários e professores de propaganda, além da totalidade dos estudantes de publicidade.

Para abertura do IV Congresso Brasileiro de Publicidade, os organizadores convidaram Kofi Annan, Prêmio Nobel da Paz em 2001 e ex-Secretário Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1997 a 2006, que falará sobre a necessidade da liberdade de expressão para os regimes democráticos, uma bela idéia que tomara sirva de inspiração para o próximo Congresso.

Temas e Presidentes

Responsabilidade Social e sua Comunicação
Presidente: Hiran Castello Branco (Giacometti e CNP)

Liberdade de Expressão Comercial
Presidente: Gilberto Leifert (CONAR)

Eficácia no Planejamento e Compra de Mídia
Presidente: Ângelo Franzão Neto (McCann Erickson e Grupo de Mídia)

A Educação, a Profissão e o Mercado
Presidente: Prof. Francisco Gracioso (ESPM)

A Criatividade Brasileira
Presidente: Nizan Guanaes (África)

Marketing Promocional
Presidente: João Carlos Zicard (AMPRO)

Licitações Públicas e Concorrências Privadas
Presidente: João Roberto Vieira da Costa (NovaS/B)

A Realidade dos Mercados Regionais

Presidente: Ricardo Nabhan (FENAPRO)

Carga Tributária e Rentabilidade das Agências, Fornecedores e Veículos
Presidente: Cyd Alvarez (PPR)

Novas Mídias
Presidente: Daniel Barbará (CBM - Companhia Brasileira de Multimídia)

A Valorização, a Prosperidade e a Rentabilidade da Indústria da Comunicação
Presidente: Luiz Lara (Lew, Lara / TBWA)

Marketing de relacionamento
Presidente: Efraim Kapulski (ABEMD)

Prestadores de serviços especializados e sua relação com agências e clientes
Presidente: Maurício Tagliari (YB e APROSOM)



Propaganda é coisa séria

5 de Maio de 2008 · 8 Comentários · 422 Views

Lamentável a forma pela qual a Associação Brasileira de Agências de Publicidade (Abap) trata a eventual proibição da publicidade de cerveja, tema discutido pelo Congresso Nacional.

Em anúncio veiculado nos jornais, no último dia 28 de abril, a Abap afirmou que a eventual proibição da publicidade de cerveja “é o mesmo que proibirem a fabricação de abridores de garrafas no Brasil”.
Pois não é o mesmo.

A discussão da sociedade sobre os limites da comunicação comercial é um direito e um dever e suas implicações com o cerceamento da liberdade de expressão, aludidas pela Abap, é uma forma mesquinha e covarde com vistas a encerrar o debate em torno de um assunto de relevância para os cidadãos brasileiros.

Não é comparando a publicidade de cerveja à proibição da fabricação de abridores de garrafa que a entidade representativa das principais agências de publicidade do Brasil colabora com o debate. Não é com esse tipo de argumentação que nós, publicitários, queremos ser percebidos pela sociedade brasileira.
Não somos um bando de inconseqüentes infantilizados que não conseguimos defender um ponto de vista sem agredir a inteligência do consumidor.

É justo que nós, publicitários, sejamos contrários à proibição. A indústria da cerveja, no mundo todo, é uma fonte generosa de campanhas publicitárias, tanto nos recursos que destina à comunicação, como nas oportunidades criativas típicas do segmento. Os publicitários argumentam que a proibição da publicidade, por si só, não é o suficiente para sanar os danos causados pelo consumo de álcool e que responsabilizar a propaganda, a ponto de proibir a veiculação de anúncios na mídia, é uma medida muito drástica que compromete um setor importante da economia nacional.

É justo que os representantes da sociedade brasileira discutam a influência da presença indiscriminada de marcas de cerveja na mídia como fonte de estímulo ao consumo excessivo, principalmente pelos jovens. Há vínculos entre a bebida e o aumento da criminalidade, dos acidentes de trânsito ou da violência doméstica.

O debate é sério e dele podem surtir bons frutos a favor de uma sociedade mais madura, capaz de aprimorar suas relações. No entanto, ao banalizar o assunto e trata-lo de maneira jocosa, a Abap presta um desserviço à liberdade, que ela tanto evoca, pois ridiculariza as opiniões contrárias com argumentos fúteis, incompatíveis com a seriedade do assunto.

Ao veicular material publicitário a favor de uma posição, a Abap externou sua preocupação com os rumos da discussão e utilizou a propaganda como ferramenta ideal para expor seus argumentos. Pena que, logo a entidade que reúne as agências de propaganda, tenha perdido a oportunidade de mostrar para toda a sociedade brasileira sua capacidade de articulação e seu papel de amplificador das opiniões.

Veja abaixo o anúncio da ABAP:



Marketing de sucesso

28 de Abril de 2008 · 1 Comentário · 622 Views

Investir nas olimpíadas? Não, vender bandeirinhas do Tibete.

Não se avista melhor negócio para os dias conturbados em que vivemos do que investir nossas economias na produção massiva de bandeiras do Tibete. Em duas semanas, fizemos muitas descobertas sobre esse lugar, inclusive a que existe uma bandeira tibetana, por sinal, multicolorida.

Mas observem como é dramática a realidade capitalista. Não satisfeitos em defender os direitos à liberdade da população tibetana, externamos nossos sinceros sentimentos em prol da autonomia do local, tremulando sua bandeira pela Europa e América e por mais quantos lugares a bendita tocha olímpica passar.

Com rapidez espantosa, não só descobrimos que o Tibete tem uma bandeira como produzimos centenas, milhares delas a pretexto de fazer o mundo perceber o quão autoritários são os chineses em relação ao povo tibetano.
Sucesso para o marketing do Tibete, fracasso para os organizadores das olimpíadas, chineses ou não, que defendem a idéia que o esporte pode tudo superar, inclusive a violência sobre os povos.

Parabéns aos que, mesmo à distância, perceberam que não se trata de uma luta exclusiva ou restritiva ao Tibete, e sim, uma luta pelas liberdades, pela autonomia e pela democracia.

O esporte é uma ferramenta ativa e eficaz para o marketing das empresas. Mas essas empresas, que investem pesadas somas em patrocínios, precisam realizar a idéia de que a prática esportiva está inserida em um contexto maior, e esse deve ser observado.

Somente uma profunda miopia considera irrelevante o fato de milhares de pessoas se mobilizarem para interromper a passagem do símbolo máximo dos jogos. Não tenham dúvidas, essa atitude macula, e muito, os milhões de dólares investidos nas Olimpíadas de Pequim 2008 e prejudica, e muito, os esforços de prestigiadas marcas em se vincular ao evento de atrativo mundial.

A China utiliza as Olimpíadas como pretexto de se mostrar ao mundo e realizou seu feito: tem se mostrado como ela é e não como seus governantes e apoiadores do mundo todo desejariam que fosse.

AUTORITARISMO

A China é um país autoritário, onde as liberdades individuais não são respeitadas e com sérios problemas sociais e estruturais. No entanto, o mundo ocidental produziu uma nação ao seu gosto e esse gosto, duvidoso, é por uma nação com milhões de consumidores, mesmo que esses milhões representem 10% do total de uma população oprimida e privada de seus direitos básicos.

As nações, ditas desenvolvidas, correram em defender esse mercado de consumo, em detrimento à nação e aos chineses e, nesse processo, abriram mão de valores pelos quais sempre lutaram, por exemplo, a liberdade e justiça social.

As marcas seguiram pelo mesmo equivocado caminho e apostaram suas verbas em um evento que nasce com a vocação da derrota, porque não respeita o que de mais valioso o ser humano tem, que é a sua liberdade.

As pessoas mudaram, os comportamentos são outros e não me estranharia que surgissem focos de resistência, boicote mesmo, às marcas que investem nos jogos de Pequim. Se isso ocorrer, não se trata de um radicalismo inconseqüente e sim do exercício do maior poder que o consumidor tem: comprar marcas que representem os valores que preza.

Não bastasse todo esse arsenal de aspectos negativos às empresas que investiram em Pequim 2008, notícias dão conta sobre a poluição que cobre o país e que pode prejudicar o desempenho dos atletas durantes os jogos olímpicos. Justamente quando o mundo todo se mobiliza em prol das políticas públicas de controle da emissão de gases, do crescimento sustentável, da preservação das florestas, o país escolhido como sede desse congraçamento mundial vira as costas e “dá de ombros” em um sinal de desprezo em relação à pauta de discussões do planeta.

A China é mesmo um país de outro mundo. De um mundo que não queremos mais. E as marcas que apóiam Pequim 2008 deveriam se preocupar com isso.