NAS TREVAS COMO NA IDADE MÉDIA

18 de Outubro de 2011 · 1 Comentário · 198 views

Incluí na pauta dos próximos dias os Jogos Pan Americanos de Guadalajara 2011. O fiz por prazer e por dever. Prazer de torcer pelos atletas brasileiros a menos de um ano das Olimpíadas de Londres 2012 e dever por considerar que o evento é digno de registro diário pelo seu significado jornalístico.

Tão simples quanto isso. O desempenho dos atletas brasileiros no México é revelador das nossas chances nos próximos jogos olímpicos e decisivo para a formação de uma geração capaz de fazer bonito na Rio 2016. No entanto não parece ser essa a orientação de alguns veículos de comunicação brasileiros que montam as suas pautas através de critérios pouco profissionais. Essa perspectiva desloca o consumidor da posição de alvo da informação de qualidade, para a de refém das vaidades corporativas. Exatamente igual à Idade Média.

É legitima a disputa pelos direitos de transmissão e, por consequência, que os eventos artísticos ou esportivos trafeguem por diferentes emissoras. Essas empresas honram a história da televisão brasileira, o compromisso de levar boa programação aos quatro cantos do país e a capacidade de mobilizar o mercado anunciante como financiador desses projetos.

Ao desdenhar a informação pelo fato de não serem os detentores dos direitos de transmissão, as emissoras rompem o compromisso com o espectador que sempre foi seu principal aliado e o fazem por pura soberba, crentes de que nada sofrerão. Esquecem ou desconhecem a história recente do Brasil e o supremo poder da audiência.

Esse silêncio vergonhoso permanecerá por mais um ano, até o final das Olimpíadas de Londres, e confirmará uma idéia muito real nos dias de hoje, a de que o espectador não precisa de ninguém decidindo o que ele deve assistir, de que as grades de programação se orientam pelas conveniências e não pelas audiências e que, para o consumidor, não há nada melhor do que exercer o papel de controlador da situação.

Findo esse período medieval e de volta às gritarias de costume em prol do ufanismo piegas, o espectador encontrará o renascimento e nele estabelecerá novos padrões de relacionamento com os veículos de comunicação. Tomara que não seja tarde demais para os que abriram mão do consumidor.



O FENÔMENO DA CENSURA

10 de Outubro de 2011 · Sem Comentários · 159 views

O Senador da República incomodado com as grosserias do comediante de televisão em relação à mulher e ao filho de um amigo e sócio, entra em contato com o proprietário da emissora e avisa que, se o tal artista não for afastado de suas funções ele, pessoalmente, irá contatar as empreiteiras e as empresas públicas e pedir para que não invistam mais seus recursos publicitários no canal de televisão. Isso é censura.

Portanto não há outro nome para o que ocorreu na última semana em relação a uma emissora de televisão, um comediante, várias grosserias e (surpresa!) um ex jogador de futebol.

Pois é, quando todos acreditavam que já havíamos assistido a tudo no país do futebol, somos brindados com a reação do ex profissional da bola, que ensaia seus primeiros passos no mundo corporativo e, por vocação, antes de habitar as páginas de negócios, volta para as páginas de fatos bizarros.

É direito de todo anunciante cancelar seus contratos comerciais com qualquer empresa de comunicação caso considere que o conteúdo apresentado não está de acordo com seus princípios.

Portanto, não haveria a necessidade da intervenção do ex jogador, dublê de empresário, em alertar a comunidade anunciante para as barbaridades proferidas pelos apresentadores do dito programa. Bastava o anunciante assistir a uma única edição para perceber que a exposição de sua marca é uma agressão aos consumidores.

Também a emissora, concessionária do canal de televisão, não necessita do alerta do prudente ídolo da torcida brasileira para se convencer que há limites para a liberdade de expressão (sim, é isso mesmo que está escrito) e que determinadas posturas são contrárias ao papel social de um veículo de comunicação.

Anunciante e emissora deviam ter tomado a frente e alertado os infantes protagonistas do programa, de inspiração argentina, que, por seus critérios, seria conveniente impor limites à manifestação das idéias sob pena dos recursos de produção cessarem. E isso não é censura.

Mas tanto os anunciantes quanto a emissora foram omissos e não cumpriram suas obrigações sociais caso, verdadeiramente, se sentissem incomodados com os impropérios dos apresentadores.

Quanto ao espectador esse tem o poder supremo de desligar a televisão ou mudar de canal, um direito inafiançável exercido com a plenitude dos que tudo podem.

Recentemente o ex jogador, protagonista do vexame de 98 e herói do sucesso de 2002, se tornou sócio de um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo, proprietário no Brasil de, pelo menos, meia dúzia de empresas, entre elas a maior agência de publicidade do país. Isso lhe confere uma condição comercial capaz de fazer valer seus princípios, assim como o Senador retratado no primeiro parágrafo.

Ao mudarmos de protagonista e substituirmos o jogador pelo fictício Senador a história assumiu seu verdadeiro caráter. O que presenciamos na semana passada foi um ato de censura comercial, motivada por interesses pessoais e não por valores sociais como tentaram nos convencer.