MEU BOM MEDINA

3 de Outubro de 2011 · Sem Comentários · 155 views

No início da carreira, ainda integrante da banda Os Mutantes, Rita Lee fez sucesso com a música José (Meu Bom José) do francês G. Moustaki, em uma versão para português (acreditem !) de Nara Leão (1942 – 1989).

A música, de arranjo e notas medievais, foi o primeiro sucesso na voz da menina ruiva que se tornaria compositora de sons que fazem parte do repertório musical brasileiro, e conta a trajetória improvável de José, o pai de Jesus Cristo.

O tom da narrativa, interpretada com ares de singeleza e dramaticidade ainda constantes na voz da jovem cantora, é uma marca registrada da autora da versão e reserva para os ouvintes a constatação de que o José podia ter vivido outra vida completamente diferente da que viveu, tivesse não se apaixonado pela “sua Maria”.

Acredito que a vida de todos nós seria realmente diferente não fossem as decisões que tomamos. A isso denominamos livre arbítrio, ou seja, nossa infinita capacidade de fazer escolhas e arcar com suas conseqüências.

A história de José é curiosa a ponto de inspirar uma canção, pelo fato de que suas escolhas não influenciaram somente a sua existência, mas sim a vida de milhões de homens e mulheres, mais de dois mil anos depois.

Nessa constatação não há nenhum sentido religioso. Caso tenha realmente existido, casado com a jovem Maria, protegido-a da perseguição ao seu filho, ajudado-a no parto em condições precárias, assumido e criado o menino como filho do casal mesmo sabendo que isso não era a verdade, transforma José em um personagem de apelo humano insuperável. Caso seja tudo uma grande invenção que superou o tempo, faz de José um dos grandes ícones da dramaturgia de todos os tempos.

Durante toda a canção de escassos dois minutos é praticamente impossível não se solidarizar com o José, a ponto de lamentar sua pouca sorte nos fatos que sucederam a partir da decisão de casar com Maria. Mas esse era o seu destino.

Em tempos de Rock in Rio e do sucesso da iniciativa é impossível não considerar o destino de todos aqueles que se empenharam na organização do mega evento e todos os riscos envolvidos em sua realização. Principalmente no destino de Roberto Medina.

Meu Bom Medina podia ter opções mais convencionais para desfrutar dos resultados dos seus muitos anos de serviços prestados à propaganda brasileira, mas as coisas não funcionam dessa maneira e Meu Bom Medina se empenhou em um projeto que tinha todos os ingredientes para lhe causar tremendas dores de cabeça.

O Rock in Rio 2011 foi um grande sucesso. Uma surpreendente sucessão de músicos, de estilos, de vozes, de luzes, de sons, mas principalmente, uma explosão de energia, onde a platéia performou tanto quanto os artistas.
 
As dificuldades de transporte, as filas para alimentação, a sujeira dos banheiros, os assaltos ao publico e a diversidade da programação, temas recorrentes dos urubus de plantão, serão debitados da nossa conta cultural e o saldo dessa planetária operação será positivo e o crédito é do Meu Bom Medina e toda a sua equipe que deram demonstrações inequívocas de capacidade de produção.

Meu bom Medina podia viver uma outra vida, em um outro planeta que não o do rock and roll ou do show business, mas seu destino, assim como o de José, é o de superar dificuldades em nome da paixão. Essa era a resposta da canção para as escolhas de José e é a minha resposta para as escolhas do Medina. Obrigado Meu Bom Medina.



A FÓRMULA DO SUCESSO

26 de Setembro de 2011 · Sem Comentários · 163 views

Semana de comunicação em universidade é como aniversário de hipermercado, só acontece no segundo semestre. Por isso quando começa agosto há uma avalanche de convites para palestras e mesas de debate.

Particularmente me sinto honrado quando sou lembrado e evito declinar dos convites. Acredito que um dia serei esquecido, por isso aproveito o momento para expor e trocar idéias com os futuros profissionais de propaganda.

Tem sido uma experiência muito boa. Há no Brasil mais de 500 faculdades de Publicidade e Propaganda que colocam cerca de 8 mil novos profissionais no mercado de trabalho por ano e congregam um universo de aproximadamente 200 mil estudantes regularmente matriculados.

São números compatíveis com a relevância da propaganda brasileira e com o tamanho do país. Dos egressos, estima-se que 10% atuarão diretamente ligados à atividade publicitária em agências, veículos, anunciantes e serviços especializados.

O sucesso dos cursos superiores de propaganda é resultado da evidência da profissão, por isso considero que todo o profissional em atuação é parcialmente responsável pela escolha dos jovens que dedicam os melhores anos de suas vidas a aprender o ofício.

A falta de um marco regulatório para a atividade é um entrave no desenvolvimento do sentimento de categoria profissional. E esse aspecto acaba por dificultar a valorização das escolas superiores de propaganda que, invariavelmente, enfrentam o desprezo do mercado.

Desprezo mútuo, porque também as escolas, a exceção das semanas de comunicação, evitam maiores envolvimentos com um universo de profissionais que não conhecem a academia, ignoram os conteúdos programáticos e menosprezam os que se dedicam ao trabalho de ensinar propaganda.

Isso provoca tremendas distorções. Assuntos que deveriam fazer parte da pauta da academia e problemas que afligem o dia a dia das empresas de comunicação são esquecidos em um acordo conveniente que cultiva uma estranha idéia de que nada supera o resultado de um bom trabalho.

É uma espécie de cultura da viabilização capaz de superar todo o debate acerca do modelo de negócio da propaganda brasileira e suas conseqüências, em prol do retorno do investimento do anunciante. Um simplismo que forja a divisão entre os supostamente modernos, alheios à discussão corporativa e os supostamente arcaicos, alheios ao desenvolvimento do produto.

Enquanto evitarmos o contraditório na academia estaremos fadados ao ostracismo da qualificação profissional.   O debate sobre o modelo da propaganda brasileira é imperativo para a formação do publicitário que encontrará um cenário completamente diferente do que existia quando foram estabelecidas as regras que orientam o negócio.

As platéias de jovens profissionais de propaganda adoram os cases de sucesso como se fossem frutos da ordem natural da equação dedicação, talento e sorte. Por isso, ao saírem das universidades superlotam os cursos de especialização à procura da profissionalização que, definitivamente, não é a vocação da academia.

A fórmula mais eficiente de profissionalização é a combinação harmoniosa entre a escola e o mercado. Isso não acontece com a propaganda brasileira, onde, há muito, não ocorrem experiências diferentes e relevantes que envolvam esses dois atores. A exceção é a Nova Batata, agência temporária, formada por estudantes, sob inspiração da NovaSB, que atendeu clientes localizados no Largo da Batata em Pinheiros, São Paulo.

Nessa iniciativa de extrema competência e sem as tradicionais afetações, ficaram maculadas as idéias da democracia dos medíocres e da ditadura dos resultados. Essa é a verdadeira fórmula do sucesso.