BEM-VINDA PLC 116

22 de Agosto de 2011 · Sem Comentários · 218 views

Em comunicado referente à aprovação pelo Senado da PLC 116, projeto de lei que estabelece as novas regras de oferta de TV por assinatura no Brasil e uma política de fomento do audiovisual nacional, a Sky afirmou que o projeto viola “gravemente” a Constituição Federal, “infla os poderes da Ancine e impõe cotas de conteúdo nacional, sem que o consumidor tenha pedido ou sequer tenha sido ouvido”.

Levando-se em conta o padrão de atendimento da Sky é bem provável que a empresa tenha dificuldades de ouvir o consumidor, tamanho o tempo médio de espera a que os usuários do serviço são submetidos a cada tentativa de fazerem valer a sua voz. Está fora de contexto a afirmação que procura se aliar a um consumidor que foi, invariavelmente, esquecido.

A Sky sabe tão bem quais são os anseios do consumidor que vende caro (muito caro) os pacotes com canais exclusivos de filmes ou esporte, as duas modalidades de maior audiência na TV paga brasileira, e essa é mais uma prova da audição seletiva da empresa que evoca a Constituição nacional em prol de seus interesses. Além do mais, apesar das dificuldades de se exercitar a democracia, seria de bom tom que os dirigentes da Sky, antes da emissão de comunicados, entendessem que o Congresso, Câmara e Senado, são instâncias de representação popular, portanto são legitimas suas atribuições para definir o regramento do funcionamento da TV paga.

Engrandeceria muito o debate caso fosse revelado pela Sky os resultados da pesquisa de satisfação que endossa a predileção dos consumidores brasileiros por “megaconstruções”, obesos em busca da forma ideal, expedições africanas a procura de leopardos, mulheres ávidas pela eterna juventude, pratos exóticos e os vinhos que ‘harrrrmonizamm’ e qualquer um dos infindáveis (sic) assuntos que povoam o line up da TV paga brasileira, sobre os quais, em nenhum tempo, qualquer cidadão demonstrou apreço. Só assim o comunicado fará algum sentido.

Mas é sabido que a Sky nunca se deu ao trabalho de ouvir o consumidor e usa o subterfúgio como retórica para insinuar um ato de censura nas novas regras de funcionamento da TV paga. Pois não há censura alguma no estabelecimento de cotas para a produção nacional.

Em dezembro de 2010 aconteceu a Conferência Brasileira de Comunicação, um grande encontro da sociedade para debater os destinos da comunicação nacional. Esse legítimo fórum foi boicotado pelas entidades representativas das empresas de telecomunicação que, dessa forma, abriram mão de se tornarem protagonistas do processo de decisão. Duvidaram seus dirigentes da capacidade de articulação da sociedade. Acostumados a outros tempos, os “capitães” da indústria apostaram nos conchavos de gabinete. Deu errado.

A PLC 116 é resultado de um exaustivo debate de quatro anos. Há ganhos e perdas na sua execução, mas, acima de tudo, o mérito de ampliar o espectro de discussão para setores da sociedade civil que ficaram à margem da política de comunicação social brasileira. O boicote à CONFECOM e o comunicado da Sky são o último suspiro da classe dominante do setor, sinalizam a chegada de um novo tempo e a falência do modelo de negócio da comunicação brasileira.



O MODELO JABUTICABA

15 de Agosto de 2011 · Sem Comentários · 262 views

É saborosa a leitura da última edição da revista Proxxima, Editora M&M, a começar pelo editorial de Pyr Marcondes (página 6, agosto 2011) em que comenta o debate promovido pela editora para discutir nosso fiasco em Cannes nesse ano.

Em um momento do texto, Marcondes escreve “Entre as razões para não termos ido bem em Cannes – na verdade, em minha opinião, representando não estarmos por aqui produzindo excelência como poderíamos – foram citados o fato de que as verbas para o digital são menores do que deveriam e que o modelo de negócios da propaganda brasileira privilegia a preferência pela mídia tradicional (…)”. O próprio jornalista enumera outras razões, mas, há tempos, esse Ponto de Vista, insiste em promover o debate sobre a influência do “modelo jabuticaba” (só existe por aqui) da propaganda brasileira, não só nos resultados dos festivais internacionais, mas também, e principalmente, na economia da comunicação nacional.

É nessa perspectiva que o debate deve prosperar. O cenário atual do consumo de mídias pelos consumidores garante a sobrevivência da estrutura da propaganda nacional? Ou, além de não ganharmos mais Leões, estamos investindo mal o dinheiro dos anunciantes tupiniquins?

As respostas para essas perguntas não seguem o roteiro tradicional do enredo encenado pelos atores da publicidade brasileira que, até então, se mostraram refratários a qualquer discussão que envolva o staus quo  do nosso negócio. Se existirem respostas, serão acordadas com a nova geração de profissionais que não atuavam à época dos combinados que, ainda hoje, persistem a engessar nossa atividade.

Aqueles que escrevem a história da propaganda brasileira contemporânea vivem realidade diferente do modelo desenhado na década de 70, portanto é ingênuo considerar que irão adotar os modelos hereditários, ou seja, sem discussão.

Os arautos da continuidade deverão se capacitar para refutar argumentos mais elaborados do que suas defesas do nosso modelo jabuticaba. Prova disso é que na mesma revista Proxxima (página 81, agosto 2011), Marcelo Tripoli, Presidente da Ithink e membro do comitê de agências do IAB Brasil – Internet Advertising Bureau – afirma “Nosso país tem um modelo de agências de propaganda extremamente especifico e que funciona (hoje) financeiramente muito bem. O novo cenário da comunicação é complexo e arriscado e exige novos modelos de negócio das agências.” .

As sentenças de Tripoli expressam sua atenção sobre importantes aspectos. O caráter específico do modelo jabuticaba, seus dias contados, a complexidade das multiplataformas e o risco da estagnação.

Marcondes e Tripoli vocalizam o sentimento comum aos que acreditam na necessidade de promover um ampliado debate sobre a estrutura da propaganda nacional para que se encontre outros modelos mais próximos da realidade do consumo de mídia.

Sobre a jabuticaba, que seja ela a única experiência genuinamente brasileira, afinal sua exclusividade nacional não chega a ser um empecilho para o nosso desenvolvimento.