Onde está Ágile

1 de Fevereiro de 2010 · 8 Comentários · 553 views

O carro da Chevrolet foi lançado discretamente e não é visto nas ruas brasileiras, mesmo assim os executivos responsáveis pela estratégia de marketing acreditam no sucesso.

O comprador do Ágile é diferente (…)“. A afirmação entre aspas foi extraída da revista Proxxima, edição de janeiro-fevereiro de 2010 e é creditada a Gustavo Colossi, diretor de marketing da Chevrolet.

É verdade o comprador do Ágile é muito diferente, ele não existe, não comprou o carro, não tem notícias sobre o lançamento e não está nem aí para as teorias do executivo de marketing que tenta transformar em estratégia o estrondoso fracasso do novo modelo da GM.

Esse é um fenômeno dos tempos de hoje. Com a comunicação voltada para nichos, os fracassos se transformam em pensamentos estratégicos. Tudo estava previsto e, nesse caso, o fato do consumidor brasileiro não ter a menor idéia de que carro é esse, é minimizada por uma suposta estratégia que privilegiou àqueles que precisam conhecer o produto, afinal o carro foi feito para eles.

Esquecem os arautos dos supostos sucessos que há mercados onde o nicho é desculpa de perdedor. A General Motors amargando perdas em sua sede nos Estados Unidos, não pode se dar ao luxo de lançar carros nichados em um de seus principais mercados internacionais, simplesmente porque esses segmentos não sustentam as pretensões de uma marca de automóveis voltada para a comercialização de volumes.

Evasivas como “dificilmente vai ao banco, usa sempre internet. Tem um jeito diferente de levar a vida. Para se comunicar com esse público era preciso fazer algo diferente. A campanha precisava ser dinâmica e sensorial” reputadas ao mesmo profissional, são, no mínimo ridículas. Nada aconteceu com o lançamento, tanto para o consumidor brasileiro “apaixonado por carros“, muito menos para esse povo “diferente“.

O mais surpreendente é que essa mesma montadora foi protagonista de um dos mais festejados lançamentos de carros de nicho da história da indústria no Brasil, o Corsa em 1994.

Ali havia estratégia. Os carros equipados com motorização de 1 litro eram desprovidos de design ou acabamento interno e o Corsa, recém lançado na Europa, trazia para a categoria de carros populares a qualidade que o consumidor brasileiro merecia.

A campanha de lançamento do Corsa foi um exemplo de criatividade e inovação e provocou uma divisão nas águas da percepção da classe média brasileira, grande compradora de carros, sobre os motores menos potentes.

A estratégia criativa contou com a compra de espaço exclusivo durante 24 horas em uma rádio com perfil jovem em São Paulo, além de outras ousadias e o modelo se transformou em um sucesso de vendas até os dias de hoje.

Comparem a história do Corsa com a constatação que “nos primeiros 20 dias da campanha o site contou com 300 visitantes únicos que ficaram nove minutos interagindo com a marca e visitaram, em média, oito páginas do portal” (Proxxima Jan-Fev página 28).

300 visitantes únicos? Nove minutos? Esse Bloganda é capaz de ter desempenho superior.

Em tempos de multiplataformas, o profissional de propaganda e marketing há de se encantar com os resultados e não com as estratégias. O pífio desempenho do Ágile é percebido por sua ausência nas ruas brasileiras e não há “doses extras de tecnologia aplicada no site” (Proxxima Jan-Fev página 28) que revertam esse fato.



Não contém glúten

25 de Janeiro de 2010 · Sem Comentários · 365 views

O que nós publicitários podemos fazer a favor do Haiti, devastado pelo terremoto, e contra o Arruda, o Governador ladrão do Distrito Federal?

Já nos manifestamos nesse Bloganda sobre o fato de que, sendo publicitários, nunca seremos convocados para coisas efetivamente importantes, assim como acontece com os médicos.


Propaganda Faz Diferenca
Criação da Almap BBDO, assinada pela ABAP e ABA.

Isso, sem dúvida, nos torna menos importantes para a humanidade. Por isso, toda vez que presencio situações como as vividas pelo povo haitiano, penso em como poderia ser útil como publicitário, não como cidadão, para ajudar, dentro da minha área de competência e conhecimento.

O mesmo ocorre com relação aos acontecimentos de Brasília e sua ladroagem oficial. O Governador, reincidente por sinal, é filmado recebendo propina e continua a desafiar a lógica se mantendo no cargo e zombando da população do Distrito Federal, exatamente no ano que a capital brasileira comemora a marca dos 50 anos. Mais uma vez, me pergunto, o que posso fazer como publicitário nesse tipo de situação? A propósito, o Arruda está precisando mais de um delegado para acompanhá-lo até a carceragem, do que de um médico, mas mesmo nesse caso é difícil encontrarmos algo para um típico publicitário fazer.

Perdoem a comparação, mas me sinto um glúten. Não tenho a mínima idéia do que seja um glúten ou quais efeitos provocam no corpo humano, mas vocês já perceberam que toda a embalagem de produtos alimentícios que se preza traz, em destaque, a expressão, não contém glúten? Ora, se a grande maioria dos produtos alimentícios não contém o bendito glúten porque a indústria continua divulgando o fato com destaque? É o mesmo que declarar que o produto não contém ácido sulfúrico.

O glúten em destaque nos produtos alimentícios por sua ausência é comparável a nós publicitários. Ambos existem e, quem sabe, sejam recomendáveis em algumas situações, mas sua ausência é mais festejada do que sua presença.

Não acredito que o Haiti precise de glúten ou de publicitários, como também não acredito que possamos combater ladrões como o Arruda pela presença do glúten ou de publicitários. Portanto, eu não sei quanto ao glúten, mas para nós publicitários eu recomendo altas doses de cidadania, civismo, ética, responsabilidade e generosidade.