A ética e o companheirismo
Segunda-feira, Dezembro 14th, 2009Forjei na propaganda relações que, se não tão íntimas, foram valiosas para me considerar uma pessoa querida pelos meus pares e capaz de provocar mobilizações em prol de idéias para o aprimoramento da nossa profissão. Isso parece companheirismo, mas para nós publicitários, é ética.
Somos mais éticos do que companheiros. A afirmação é forte, mas é verdadeira. Muitas atividades profissionais se pautam pelo companheirismo. Médicos, advogados e engenheiros, são companheiros uns dos outros.
Isso os torna imunes aos ataques da sociedade que não consegue ver prosperar denuncias das mais diferentes ordens, tais como, erros profissionais, cobranças indevidas, reservas de mercado entre outros.
Nós publicitários, desenvolvemos a capacidade de avaliação sobre o trabalho alheio sem restrições. Por isso promovemos e participamos de inúmeros festivais onde submetemos nossos trabalhos à apreciação de outros publicitários e encaramos os resultados com naturalidade quando não somos premiados, e com festa quando conquistamos alguma láurea.
É difícil imaginar médicos submetendo seus procedimentos para um grupo de jurados médicos isentos. O que acontece, com alguma freqüência, são os congressos médicos onde a apresentação de trabalhos é patrocinada por laboratórios farmacêuticos interessados na divulgação de suas patentes.
Não satisfeitos com os Festivais, mantemos nosso próprio órgão fiscalizador, capaz de retirar de veiculação qualquer anúncio que não respeite o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. Não abrimos sindicâncias estéreis. Qualquer consumidor desgostoso dos rumos da propaganda reclama e é imediatamente atendido.
Experimentem essa agilidade nos Conselhos Regionais de Medicina ou Engenharia e na Ordem dos Advogados do Brasil. Os companheiros se protegem em detrimento da ética.
Por isso o jovem profissional de propaganda precisa entender desde cedo que algumas das nossas atitudes são orientadas pela ética e não pelo companheirismo. Somos vaidosos, valorizamos nossas conquistas e conseguimos destacar do coletivo aquilo que foi pensado e executado individualmente. Não há ressentimentos nesse comportamento que é ético, porém desprovido do sentido de companheirismo que conhecemos que enaltece o coletivo e não o individual. Isso é o personalismo da propaganda e é o que provoca o culto às personalidades. Faça o teste, sua mãe conhece mais publicitários famosos do que cardiologistas.
Expomo-nos através dos trabalhos ao juízo permanente da sociedade e dos nossos pares e não nos escondemos das conseqüências. Sofremos a condenação à propaganda de cigarros e a extinção da mídia exterior na cidade de São Paulo. Em ambos os casos debatemos o tema com a maturidade necessária sem ceder das nossas posições, mas cientes das responsabilidades e sem os escapes das grandes corporações.
O espaço que o debate sobre a propaganda ocupa no cenário nacional é diretamente proporcional à ética da atividade. Só em ambientes onde as relações éticas se sobrepõe ao companheirismo a discussão prospera e todos nós, profissionais de propaganda, devemos nos orgulhar disso.













