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O Tambor da Esperança

Segunda-feira, Agosto 31st, 2009

Admito a falta de atividades mais interessantes e confesso que assisti ao Criança Esperança da TV Globo em um sábado frio de agosto. Dessa experiência restou a certeza de que estamos no caminho certo, afinal nossas crianças tocam tambor como nenhuma outra na face da terra.

Assistir ao programa Criança Esperança é um exercício de paciência extrema. Primeiro porque há 24 anos o modelo se repete sem concessões ao novo. Segundo porque a ladainha dos apresentadores é enfadonha e não acrescenta nada no que já se conhece sobre a situação da criança e adolescência no Brasil. Terceiro porque, venhamos e convenhamos, para arrecadar 1 milhão de reais durante as 4 horas de programa, a TV Globo não precisa fazer todo esse espetáculo, basta abrir mão de 3 inserções no Jornal Nacional.

Mas todo o ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo que se preza, tem o seu Criança Esperança e “o da poltrona” é submetido às atrações repetidas e aos textos sem imaginação. Nessa última edição alguns notáveis visitaram comunidades para mostrar em quais programas são aplicados os recursos doados. Uma tentativa de fazer um contraponto com a Rede Record que, supostamente, desvia verbas da Igreja Universal para os cofres da emissora.

Com a Unesco, seja lá o que for isso, as coisas não acontecem da mesma maneira e os donativos são totalmente aplicados naquilo que os jovens brasileiros sabem fazer melhor: tocar tambor.

Ou seja, as pessoas ligam para os números da tela, fazem suas doações, devidamente descontadas das respectivas contas telefônicas, a Unesco recebe o dinheiro e investe na mais genuína e útil atividade dos jovens brasileiros, tocar tambor.

Tão importante movimento é considerado pelos patrocinadores do projeto, TV Globo e Unesco, e seus dois apoiadores, Petrobras e Tramontina, um processo de inclusão social. Óbvio, tocar tambor inclui os jovens na sociedade sedenta por novos sons e ritmos advindos desse gracioso e virtuoso instrumento que é o tambor.

O acesso à cultura é a principal obra dos 24 anos de Criança Esperança e o tambor é o legitimo representante do que mais cultural podemos ter nesse país. Não precisamos de jovens com uma formação profissional, desenvolvidos de competências com espaço garantido no mercado de trabalho, tão pouco de jovens inseridos em contextos regionais e descobridores de vocações com seus pares. Precisamos de tocadores de tambor. Um país de muitos Carlinhos Brown.

É forte nossa aptidão ao batuque sólido emanado do couro esticado a tal ponto da maior empresa brasileira e uma das maiores do mundo incluir em seu anúncio o símbolo nacional de desenvolvimento sustentável, o tambor. O filme produzido com o vago objetivo de falar de transparência (mais uma vez, seja lá o que isso for para a Petrobras) tem uma cena antológica, alguém toca um tambor.

Que país do futebol que nada, somos o país do tambor. Desde muito jovens aprendemos a bater no tambor. Primeiro um pouco desajeitados, felizes somente em produzir barulho. Depois, mais graciosos, mais felizes em produzir mais barulho. Nosso clímax se dá nas festas populares, momento de glória para todo o tocador de tambor.

Em 2010 o projeto Criança Esperança completará 25 anos de investimento contínuo em tocadores de tambor. Será uma grande festa. Sem muitas novidades, porque nada pode desviar nossa atenção daquilo que realmente importa, continuar incentivando e financiando instituições a propagarem o talento dos nossos jovens na arte de tocar tambor.

A fórmula do sucesso e o doce sabor do autoritarismo

Segunda-feira, Abril 13th, 2009

A atual fórmula do sucesso para garantir espaço na mídia brasileira é falar que todos os males que afligem o Brasil tem origem na atividade publicitária.

A equação é simples. Primeiro se seleciona um tema de grande apelo social, por exemplo, as bebidas alcoólicas, a obesidade infantil, a violência dos adolescentes etc… Depois se procura na internet uma tese acadêmica que aborde o tema. Não interessa o pesquisador, seu orientador, a escola em que estuda ou onde ela fica. O que interessa é malhar a propaganda. Sim, caso o leitor não saiba, todas as teses acadêmicas, de mestrado ou doutorado, que abordam temas de grande sensibilidade junto à sociedade brasileira, trazem um capítulo sobre propaganda e sua influência maléfica sobre as pessoas.

Dessa forma, temos o tema e um pesquisador. Mas ainda está faltando um elemento para completar a equação do sucesso e o espaço garantido na mídia. Então, que tal um militante de ONG?

Essas são figuras fáceis. Sempre dispostos a emitir uma opinião, ainda mais quando acompanhados do pesquisador, não se furtam de responsabilizar a propaganda como provedora dos infortúnios brasileiros.

Resta ainda a participação de um parlamentar e isso nós temos de sobra no Brasil. São 513 Deputados Federais e 81 Senadores e dentre essas 594 pessoas, sempre existe uma disposta a endossar o coro do pesquisador e da ONG.

Está pronto o sarapatel. T+P+MP+PP= EM. Ou seja, Tema + Pesquisador + Militante Profissional + Político Profissional é igual a Espaço na Mídia. E como tem espaço na mídia para as besteiras que se fala sobre propaganda! Todo o dia tem um “paladino da justiça” para dizer o que a população brasileira pode ou não pode assistir e tudo em nome da preservação do estado emocional da criança que não pode ver na televisão, o que é obrigada a vivenciar, todos os dias, nas ruas brasileiras.

Não podemos mais aceitar esse tipo de situação. A proteção à criança não é prerrogativa de meia dúzia de interesseiros dispostos a ganhar dinheiro com o discurso fácil contra a propaganda. A atividade publicitária é um assunto sério que não pode ficar a reboque do pensamento totalitário e reacionário das ONGs ávidas por financiamento para a produção de pseudos estudos sobre a influência da publicidade.

Antes de embarcar na canoa mal intencionada das ONGs que protegem as crianças da propaganda (vejam o absurdo), procurem saber quem está por trás dessas organizações e não se surpreendam em encontrar os mesmos atores que promoveram e apoiaram no Brasil, por mais de 20 anos, o cerceamento das liberdades através da ditadura militar, tendo como argumento a preservação dos valores da sociedade. Igualzinho como agora.