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Às voltas com a escravidão

Segunda-feira, Abril 6th, 2009

“Atletas do Flamengo sofrem, mas dão exemplo de profissionalismo” essa foi a manchete do Caderno de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, do dia 19 de março de 2009. Sim 2009.

Bem vindos à escravidão. Convencidos de que não há melhor regime nas relações de trabalho do que a escravidão, os jogadores de basquete do Clube de Regatas Flamengo, optam, portanto voluntariamente, pelo trabalho não remunerado em troca das migalhas do sucesso.

Difícil equação. Esqueceram de avisar-lhes que o basquete não traz nenhum sucesso nesses trópicos a não ser que você chore compulsivamente por qualquer motivo, seja candidato a cargo público e tenha o beneplácito da principal emissora de televisão do país. Nesse caso e só nesse caso, você pode se chamar Oscar e ser tratado como uma espécie de Bobo da Corte.

Caso contrário, seus dias de glória são tão efêmeros quanto a matéria do jornal paulistano que tentava estabelecer uma relação entre a humilhação e o profissionalismo.

Não é objeto desse Bloganda o trato das questões do trabalhismo desportivo, mas está inserido na matéria um dos piores conceitos do mundo capitalista: o sacrifício pelo trabalho. Uma besteira, que devemos tratar nesse espaço porque encontra eco, até mesmo, na atividade publicitária.

Pensamos e nossos empregadores nos fazem pensar, que devemos algo a quem compra nossa capacidade de trabalho. Pois não devemos nada. Muitas vezes somos credores, quando colocamos nosso talento a serviço da empresa com competência e ética, não necessariamente nessa ordem.

Quando pensamos que devemos, por falta de talento, competência ou ética, nossos contratantes têm todo o direito de dispensar nossos desserviços e contratar outro melhor. Portanto não há dividas nas relações trabalhistas. Trabalhamos porque essa é a forma de sobrevivermos.

Portanto ninguém joga basquete porque gosta. Joga, de maneira profissional para sobreviver e deposita no exercício dessa atividade talento, competência e ética ou a falta de talento, a pouca competência e a inexistência da ética. Essa última situação parece que se aplica aos jogadores do Flamengo.

Não é exemplo de nada trabalhar sem receber, quando se devia receber. Isso não significa o descrédito no trabalho voluntário e militante. Esse é justo e, de preferência, deve ser exercido em conjunto com as atividades remuneradas, porque só dessa forma se mantém ético.

Quando os jogadores de basquete do Flamengo decidem continuar jogando e conquistando títulos sem a remuneração combinada com o clube, estão incentivando um tipo de sociedade contra a qual nós, seres humanos e, portanto equipados de inteligência, lutamos há muitos e muitos anos.

Os futuros profissionais de propaganda devem estar alertas contra a falsa idéia de que no começo da carreira tudo é válido para a conquista de um lugar ao sol no disputado mercado de trabalho. Todos, sem exceção, irão trabalhar muitas horas por dia, jantar muita pizza nos escritórios, refazer muitas vezes a mesma coisa, ouvir muita bronca de chefe, sofrer algumas injustiças, engolir uma infinidade de sapos, mas tudo isso no limite da ética. Recebendo o que foi inicialmente combinado. Nunca de graça.

Cuidado com a exploração da sua força de trabalho. Isso é assédio moral, isso é escravidão e, em nada se aproxima do divulgado profissionalismo que o jornal O Estado de S. Paulo reputou aos atletas do Flamengo.

Abaixo a enganosa idéia da propaganda enganosa

Segunda-feira, Março 30th, 2009

Nós publicitários somos alvos fáceis. Todos comentam sobre as coisas da propaganda sem conhecimento e sem vergonha alguma. Nessas ocasiões nos limitamos a rir e considerar que tudo isso não passa de conseqüência da nossa notoriedade.

Não há nada mais enganoso que o direito. Uma ciência que admite que os culpados, mesmo os declaradamente culpados, merecem um julgamento e, até mesmo, o perdão, tamanho o número de atenuantes que qualquer crime pode ter.

O que falar então da medicina. Rivaliza com o direito em termos de enganosidade. Além de tudo ser vírus, os exames, hoje praticamente obrigatórios, tem seus resultados auto-explicativos, ou seja, os leigos entendem e são capazes de se diagnosticar.

No entanto não ouço falar sobre o direito enganoso e a medicina enganosa e sim, ouço, cada vez mais, a expressão propaganda enganosa. Mas o que isso significa?

Nada. Por se tratar de uma inverdade. Existe consumidor enganado. Aos montes, diga-se de passagem. Os consumidores se enganam quando não entendem a mensagem publicitária, se enganam quando não prestam atenção nas regras das promoções, se enganam quando absorvem a metade (se tanto) dos anúncios a que são expostos.

Mas o despreparo do consumidor é responsabilidade da propaganda, pelo menos aos olhos daqueles que são contra a publicidade, então se transfere a enganosidade para a propaganda e absolve-se o consumidor do mal entendimento.

Isso não significa que todas as publicidades a que estamos expostos sejam de qualidade irrefutável, pelo contrário. Assim como advogados e médicos medíocres e incompetentes, também existem publicitários despreparados para o exercício profissional. A má propaganda atinge a sociedade como a má medicina e o mau direito.

Mas nós, profissionais de propaganda, temos que evitar a disseminação da idéia de que a propaganda enganosa é um tipo de propaganda. Não conheço nenhum publicitário que pratique a enganosidade como atributo de seu trabalho. Em anos de atividade profissional, nunca presenciei um anunciante disposto a enganar alguém. Tanto publicitários como marqueteiros, com os quais tive oportunidade de compartilhar experiências profissionais, mantiveram, sempre, postura ética exemplar.

No entanto, o conceito da propaganda enganosa está pulverizado pela sociedade, que utiliza a expressão sem a conferir seu real significado. Isso é uma agressão a nossa atividade profissional, não devemos sequer admitir ouvir isso sem nos manifestarmos contrariamente de forma contundente.

A repetição de que se pratica uma propaganda enganosa provoca a pré-conceituação da publicidade e colabora com a idéia de que nossa atividade profissional é nociva à construção de uma sociedade mais justa.